Revolta Dos Malês 1835 - 17- Sobre a Revolta dos Malês, ocorrida na Bahia, em 1835, durante o ...
17- Sobre a Revolta dos Malês, ocorrida na Bahia, em 1835, durante o ...

Entendendo a revolta dos malês 1835

A revolta dos malês 1835 foi a maior insurreição urbana de escravizados no Brasil, acontecida na cidade do Salvador, Bahia, nos dias 25 e 26 de janeiro daquele ano. O nome "malês" vem de "malê", termo de origem iorubá (ylê) que significa "aquele que sabe ler e escrever em árabe". Os participantes eram majoritariamente musulmanos, mas a revolta também reuniu outros grupos africanos escravizados, especialmente jeje-nago e bantos.

O que foi a revolta dos malês 1835: contexto e preparação

Para entender como uma rebelião dessas aconteceu, você precisa olhar para o contexto da Bahia na década de 1820 e início de 1830. A province era o maior polo comercial do Império do Brasil e a maior porta de entrada para a mão de obra africana escravizada. Estima-se que cerca de 60% da população de Salvador era composta por pessoas escravizadas de origem africana, sendo os angolas e nagôs os grupos mais numerosos. O ponto central da organização foi a existência de um grupo de escravizados alforriados e libertos, muitos deles comerciantes de pequeno porte, que conseguiam manter vínculos com a África. Esses homens — como os têcelas Maneco Preto, Pacífico Lacerda e Manoel Zenóbio — organizavam reuniões em casas de santo, especialmente nas vizinhanças de Santana, Piedade e Santo Antônio além do Carmo. A comunicação acontecia em árabe, para evitar que capatazes e policiais entendessem os planos.

Aqui vai algo que poucos livros didáticos mencionam com a devida importância: a revolta não foi um motim improvisado. Os participantes planejavam ataques simultâneos a pontos estratégicos da cidade — Quartéis da Guarda Nacional, delegacias, prisões e mansões de senhores de engenho — e previa-se que o levante se espalhasse por toda a cidade, incluindo as áreas rurais do distrito. Os líderes tinham conhecimento tático: alguns combatentes haviam servido no exército português durante as guerras napoleônicas e também nas guerras de independência da África Ocidental. Isso explicaria a capacidade de organização e a distribuição de funções militares durante a insurreição. No dia 24 de janeiro de 1835, dois dias antes da revolta, um casal de escravizados chamado João e Maria foram presos suspeitos de espionagem. O homem teria vazado informações sobre os planos para seu senhor, um capitão da Guarda Nacional. Essa foi a falha de segurança que desbaratou parcialmente a conspiração antes mesmo dela começar. Os líderes reagiram acelerando o cronograma, mas perderam o elemento surpresa.

Como a revolta aconteceu na prática

No domingo, 25 de janeiro, por volta das onze horas da noite, cerca de 300 a 500 insurgentes armados com foices, facões, espadas e algumas poucas armas de fogo saíram às ruas de Salvador. Eles avançaram contra o quartel da Guarda Nacional no Largo do Pelourinho, mas a resistência foi maior do que o previsto. Os insurgentes enfrentaram militares preparados e, diante da falta de munição e da superioridade numérica das forças leais, foram se retirando gradualmente. A batalha mais longa aconteceu no centro da cidade, próximo à Igreja do Rosário dos Pretos, onde os revoltosos se defenderam por várias horas. Quando as tropas governamentais cercaram o grupo principal, eles tentaram fugir pelo bairro da Piedade, mas foram capturados ou mortos nos dias seguintes. Cerca de 70 revoltosos morreram durante os confrontos diretos; outros tantos foram executados após julgamentos sumários. Não há números precisos sobre o total de mortos, já que muitas execuções não foram registradas formalmente.

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O governo reprimiu com extrema violência. Mais de cem pessoas foram presas, processadas e condenadas. Dezesseis foram enforcadas publicamente. Vinte e cinco foram fuziladas. Cerca de trezentas receberam golpes de chicote — números variam entre duas e quatro centenas, dependendo da fonte. Muitos outros foram deportados para a África, sobretudo para a Nigéria e Benin, sem julgamento formal. As fontes oficiais da época contabilizaram trêscentos e cinqüenta processos judiciais, mas historiadores como Edilberto Silva e Joanna Brooks apontam que muitas prisões não foram devidamente documentadas.

Revolta dos malês 1835: o legado e as controvérsias

O que faz esse evento ser tão pouco discutido fora dos círculos acadêmicos especializados tem a ver com o apagamento sistemático que ocorreu nas décadas seguintes. O código criminal e as leis de terras do período imperial trataram a revolta como uma exceção, não como parte de um padrão mais amplo de resistência negra urbana. Os registros coloniais e imperiais descreveram os líderes como "fanáticos mahometanos" para deslegitimar a organização política por trás do movimento, ignorando completamente que a motivação ia muito além da religião. A maioria dos participantes não era muçulmana. Um equívoco comum em materiais introdutórios é apresentar a revolta como puramente religiosa. A realidade é mais complexa. O islamismo funcionou como elemento unificador e de comunicação entre grupos étnicos diferentes, mas a insurreição tinha objetivos claramente políticos: fim da escravatura, autonomia política e, em algumas versões do plano, a instauração de um Estado islâmico no território brasileiro. Os próprios documentos escritos em árabe encontrados entre os — chamados de "papéis amarelos" — revelam referências a conceitos de justiça social, soberania e resistência, não apenas práticas devocionais.

Aqui está um ponto que causa confusão frequente: a relação entre a revolta e o Islamismo. Sim, os malês eram muçulmanos e usavam o árabe para comunicação interna. Mas a insurreição não era uma jihad no sentido teológico estrito. Era uma revolta de escravizados com estratégias militares e logística urbana. Confundir os dois aspectos — o religioso e o político-militar — empobrece a compreensão do evento e alimenta narrativas exotizantes que os próprios agentes coloniais procuravam difundir. Outro problema prático ao estudar a revolta dos malês 1835 é a fragmentação das fontes. Os documentos oficiais estão espalhados entre o Arquivo Público do Estado da Bahia, o Arquivo Nacional no Rio de Janeiro e acervos privados. Muitos foram destruídos durante incêndios e traslados problemáticos no século XIX. Para quem precisa acessar os processos judiciais originais, a dica prática é começar pela coleção digitada pelo projeto Memoria Foz, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, que disponibiliza gratuitamente imagens em alta resolução de mais de duzentos processos criminais relacionados aos condenados. O acesso é direto, mas a qualidade das digitalizações é irregular — algumas páginas estão ilegíveis devido ao estado de conservação dos originais.

Uma limitação importante que raramente é mencionada: as fontes escritas em árabe são de difícil transcrição e tradução. Muitos estudiosos brasileiros não dominam a língua, e os tradutores especializados são escassos. Isso cria um gargalo historiográfico real. O trabalho da pesquisadora Beatriz Muniz, por exemplo, levou anos para decifrar apenas uma fração pequena dos documentos árabes apreendidos. Quem quer se aprofundar no tema precisa ter paciência com essa barreira linguística. Os efeitos da repressão na comunidade musulmana de Salvador foram duradouros. As casas de culto foram sistematicamente destruídas, os líderes executados ou exilados, e as práticas religiosas muçulmanas foram forçadas a se esconder ou se sincretizar com o candomblé e outras tradições afro-brasileiras. Esse processo de transformação cultural é bem documentado nos trabalhos de João José Reis, mas ainda recebe pouca atenção fora da academia. A própria noção de "malê" como categoria social desapareceu das fontes oficiais após 1835, substituída por rótulos mais genéricos como "negro mina" ou "angolano", o que dificulta rastrear as redes de solidariedade que sustentavam a organização pré-revolta.