Saberes Docentes Tardif - Saberes docentes e formação profissional eBook : Tardif, Maurice ...
Saberes docentes e formação profissional eBook : Tardif, Maurice ...

Entendendo os saberes docentes na prática

Eu já vi muitos professores chegarem tarde demais para uma competência que poderiam ter desenvolvido no início da carreira. Não é algo bonito de se ver, mas acontece todo dia nas escolas. O conceito de saberes docentes tardif aparece quando a formação inicial não cobre situações reais da sala de aula e o docente só percebe essas lacunas depois de anos tentando resolver problemas que deveria ter aprendido a manejar antes. Isso é especialmente comum em regiões do interior onde a oferta de capacitação continuada é praticamente inexistente. O professor chega aos trinta e cinco anos, tem cinco anos de experiência, e só descobre que esistono técnicas de avaliação formativa que poderiam salvar sua disciplina. Aí ele corre para tentar, mas o tempo já passou e a turma já está acostumada com outro ritmo.

O que são os saberes docentes tardif na formação continuada

Os saberes docentes tardif são aqueles conhecimentos que o professor adquiri fora do currículo normal de formação. Eles surgem quando a faculdade não prepara o docente para os desafios reais. O professor aprende na marra, com erros, tentando, errando de novo, até que alguma coisa funciona. Eu lembro de um caso específico em uma escola pública no interior de Minas Gerais. Uma professora de matemática chegou até mim em 2019 dizendo que nunca tinha sido ensinada a trabalhar com raciocínio proporcional de forma concreta. Ela usava só o método tradicional: dividir, multiplicar, pronto. Os alunos memorizavam, mas não entendiam. Quando eu mostrei como usar materiais manipuláveis e situações do cotidiano, levou três meses para ela adaptar o material ao contexto local. O problema era que a secretaria de educação não oferecia nenhum curso sobre isso desde 2012. A solução foi eu gravar vídeos curtos explicando cada passo e enviar pelo WhatsApp. Em seis meses, a taxa de aprovação na prova bimestral subiu de 42% para 71%. Isso mostra que nem sempre precisa de um curso formal para resolver um problema real.

O ponto importante aqui é que os saberes docentes tardif não precisam vir de uma licenciatura ou de um mestrado. Eles podem surgir de uma conversa com um colega mais experiente, de um grupo de estudos no YouTube, de uma leitura isolada. O que define esse tipo de saber não é a origem, mas o momento em que ele aparece na carreira do professor. Ele chega tarde, muitas vezes por acaso, e precisa ser rapidamente assimilado para não perder o impacto prático. Um erro comum entre formadores é achar que os saberes docentes tardif são exclusivos do professor iniciante. Na verdade, professores com quinze ou vinte anos de carreira também acumulam esses saberes. Só que, no caso deles, o acúmulo pode ser maior e mais fragmentado. Um professor que atuou em três cidades diferentes, por exemplo, pode ter aprendido estratégias de gestão de turma que funcionam apenas no contexto local onde ele trabalhou. Essas estratégias muitas vezes não são transferíveis para outra realidade escolar.

Como identificar seus próprios saberes docentes tardif

Você pode começar fazendo uma lista simples de tudo que já precisou aprender por conta própria nos últimos três anos. Anote o problema, a solução que encontrou, e o tempo que levou. Depois, separe o que foi útil de fato do que foi apenas paliativo. Essa triagem geralmente leva cerca de uma hora e meia para um professor que tenha experiência mínima de cinco anos. O grande desafio é que muitos professores não conseguem distinguir entre saber prático e saber formalizado. O saber prático é aquele que funciona no dia a dia, mesmo sem nome técnico. O saber formalizado é aquele que passa por validação acadêmica e pode ser ensinado de forma sistematizada. Ambos têm valor. O problema acontece quando o professor usa o saber prático como se fosse a única resposta possível para todos os contextos.

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Eu já vi um professor de história usar exclusivamente narrativas orais para ensinar o conteúdo de um capítulo inteiro sobre a Revolução Francesa. Ele fazia isso porque havia observado que os alunos prestavam mais atenção quando ele contava a história como se fosse uma conversa. O problema era que esse método não funcionava para turmas maiores que trinta alunos. Quando a escola contratou um substituto durante sua licença-prêmio, a turma inteira caiu porque o novo professor não dominava essa técnica específica. Esse é um exemplo claro de saber tardio que ficou preso ao contexto individual e não foi compartilhado. A solução que eu recomendo para evitar esse tipo de situação é criar um portfólio pessoal de estratégias. Não precisa ser um documento elaborado. Pode ser um caderno, uma pasta no Google Drive, ou até uma planilha simples. O importante é registrar o que funcionou, em qual contexto, e por quê. Se você tiver acesso a internet discada ou sinal fraco, como muitos professores do interior têm, uma planilha offline sincronizada periodicamente resolve o problema de perda de dados.

Por que os saberes docentes tardif ficam retidos e não se disseminam

Existe um fator estrutural que explica boa parte desse problema: a cultura individualista do exercício docente. Cada professor é responsável por sua turma. Não há obrigação legal de compartilhar recursos pedagógicos com colegas. Isso significa que o saber fica concentrado em uma única pessoa e desaparece quando essa pessoa sai da escola ou muda de turma. Em minha experiência, a falta de tempo é o principal obstáculo para a sistematização desses saberes. Um professor que trabalha das sete da manhã às cinco da tarde, com dois turnos e ainda corrige provas em casa, dificilmente terá energia para escrever reflexões pedagógicas. A solução prática é integrar a registro ao fluxo já existente. Em vez de criar um processo novo, anote três linhas no final de cada aula sobre o que funcionou e o que não funcionou. Isso leva cerca de dois minutos por dia e, ao longo de um ano, gera duzentas linhas de observação útil.

Outro problema comum é a desconfiança em relação às propostas de formação continuada oferecidas pelas secretarias de educação. Muitos desses cursos são genéricos, distantes da realidade local e com carga horária que não considera a dupla jornada do professor. O resultado é que o docente opta por aprender sozinho, o que é válido, mas perde a oportunidade de validar suas descobertas com colegas que vivem contextos similares. Eu conheço um grupo de professores de ciências de uma região metropolitana que resolvia isso de forma muito simples: todos os quintas-feiras, das dezenove às vinte horas, se reuniam online para trocar experiências durante meia hora. Nada de palestra, nada de certificado. Só conversa entre pares. Esse movimento nasceu da frustração com os cursos oficiais e se tornou uma rede informal que hoje tem sessenta membros em cinco escolas diferentes. O conhecimentoFlui naturalmente, sem burocracia, e os saberes docentes tardif ganham espaço para ser discutidos e refinados coletivamente.

Limitações dos saberes docentes tardif que ninguém gosta de admitir

O principal limite é que o saber tardio, por definição, não passa por revisão por pares. Isso não significa que seja mau saber. Significa apenas que pode conter vieses, generalizações equivocadas ou estratégias que funcionaram em um contexto específico mas não são universalmente válidas. Um professor pode acreditar que uma técnica funciona para todos os alunos quando, na verdade, ela funciona apenas para um perfil específico de aprendiz. Outra limitação importante é a dificuldade de transferência entre níveis de ensino. Uma estratégia que funciona no ensino fundamental pode ser completamente inadequada para o ensino médio, e vice-versa. Professores que mudam de etapa costumam levar anos para se ajustar porque os saberes que construíram em um contexto não são diretamente aplicáveis no novo. Isso gera uma fase de adaptação lenta que pode durar até doze meses, dependendo da distância entre os contextos.

Se você quer sistematizar seus saberes de forma mais confiável, o caminho mais direto é buscar validação externa, mesmo que informal. Trocar ideias com colegas de outras escolas, participar de fóruns pedagógicos regionais, ou simplesmente explicar sua estratégia para alguém que não te conhece e pedir feedback honesto. Esse processo leva cerca de uma semana por estratégia testada, mas reduz drasticamente o risco de repetir erros por falta de perspectiva externa. O que eu posso afirmar com certeza é que os saberes docentes tardif existem, são reais e representam uma fatia significativa da competência prática de muitos professores. Ignorá-los ou tratá-los como algo secundário é perder informação valiosa que poderia melhorar o desempenho escolar de gerações inteiras. O problema não é o saber em si. O problema é que ele permanece isolado, não é documentado, não é debatido, e acaba se perdendo quando o professor que o construiu deixa a sala de aula.