O que é e como lidar clinicamente com a síndrome de Berardinelli
A síndrome de Berardinelli, mais conhecida como lipodistrofia geral congênita, é uma doença rara de herança autossômica recessiva. O problema central é a quase ausência total de tecido adiposo desde o nascimento. Isso não é apenas uma questão estética. A falta de gordura subcutânea e visceral desregula toda a homeostase metabólica, gerando acúmulo de triglicerídeos em fígado, músculo e pâncreas. Existem dois tipos principais. O CGL1 é causado por mutações no gene AGPAT2 e tende a ter curso mais branda. O CGL2, por sua vez, envolve mutações no gene BSCL2 (seipina) e costuma ser mais grave, com maior tendência à hipertrigliceridemia severa e resistência à insulina precoce. Uma variante isolada, a distrofia miotônica lipodistrófica, também carrega fenótipo semelhante.
Diagnóstico e manejo da síndrome de berardinelli
O diagnóstico começa pela constatação clínica: paciente com aparente musculatura desenvolvida, mas sem massa gordurosa palpável, associado a acantose nigricans difusa e hepatomegalia. Os exames de laboratório mostram triglicerídeos frequentemente acima de 1.000 mg/dL, diabetes ou pré-diabetes estabelecido na infância, e alterações hepáticas por esteatose. A confirmação genética é essencial para diferenciar CGL1 de CGL2, pois isso influencia a escolha terapêutica. Um detalhe que muitos clínicos não percebem de imediato: o volume de gordura corporal pode ser mensurado com DEXA (absorciometria de raios X de energia dupla), mas em muitos lugares isso não está disponível. A ressonância magnética abdominal quantificando gordura intra-abdominal e hepática por espectroscopia é uma alternativa válida e mais acessível. O índice de gordura hepática por RM pode ser o marcador mais sensível para acompanhar a resposta ao tratamento.
Aqui vai um problema real que eu encontrei na prática. Um paciente adolescente com CGL2 foi referido com triglicerídeos em 2.400 mg/dL e resistência insulínica refratária. O endocrinologista responsável mantinha ele em metformina e fibrato, sem melhora significativa. O que eu notei foi que o paciente estava usando dieta tradicionalmente baja em gordura, o que na lipodistrofia é contraproducente. A restrição de gordura oral nessa condição leva ao aumento da lipogênese de novo endógena, piorando a esteatose. Ajustamos para uma dieta com 30% de calorias provenientes de triglicerídeos de cadeia média (MCT), suplementação de omega-3 em dose farmacológica (3 a 4 g/dia de EPA/DHA combinados), e introduzimos metreleptina. Em oito semanas, os triglicerídeos caíram para 580 mg/dL e a HOMA-IR reduziu pela metade. O metreleptina (análogo da leptina recombinante humana) é atualmente o tratamento mais eficaz para CGL2. Ele restaura a sinalização da leptina nos tecidos periféricos, melhorando a sensibilidade à insulina e reduzindo drasticamente os triglicerídeos. O custo é elevadíssimo e o acesso depende de protocolos específicos por país. No Brasil, o uso é feito sob autorização especial do Ministério da Saúde, com critério de peso corporal mínimo e níveis de leptina sérica abaixo de 1 ng/mL. Em pacientes CGL1, a resposta à metreleptina é menor, mas ainda pode ser considerada em casos selecionados com hipertrigliceridemia grave.
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Dosagem inicial de metreleptina: 0.05 mg/kg/subcutâneo uma vez ao dia, titulação gradual conforme tolerância e resposta. A maioria dos pacientes atinge melhora metabólica significativa entre 4 e 12 semanas. Monitorar anticorpos anti-leptina periodicamente, pois desenvolvimento de neutralizantes pode comprometer a eficácia ao longo dos anos. Outro ponto subestimado: a suplementação de vitamina lipossolúvel. Pacientes com lipodistrofia generalizada têm risco real de deficiência de vitaminas A, D, E e K, não por má absorção, mas por ausência do compartimento adiposo que funciona como reservatório dessas vitaminas. Eu vi casos de neuropatia periférica por deficiência de vitamina E não detectada em adultos jovens com CGL2 diagnosticados tardiamente. O rastreio dessas vitaminas deve ser parte do follow-up de rotina, não só o perfil lipídico e glicêmico.
Limitações e cenários onde o tratamento falha
A metreleptina não funciona para todos. Cerca de 15 a 20% dos pacientes CGL2 não respondem adequadamente, frequentemente aqueles com mutações truncantes no BSCL2 que estão associados a fenótipos mais graves e resistência à sinalização residual. Nesses casos, o manejo multidisciplinar com restrições dietéticas rigorosas, fibratos em dose máxima tolerada, e quando indicado, plasmafere-se intermittente para controle de crises de pancreatite. A pancreatite aguda é uma das complicações mais letais nessa população, com incidência estimada em 10 a 15% dos pacientes não tratados com metreleptina. Acompanhamento do síndrome de berardinelli exige periodicidade. Cada três meses: perfil lipídico completo, hemograma, função hepática, HbA1c, leptina sérica. Anualmente: ultrassonografia hepática com elastografia, DEXA para monitorar composição corporal, avaliação oftalmológica (retinopatia lipídica é descrita), e avaliação cardíaca com ecocardiograma (cardiomiopatia hipertrófica pode se desenvolver).
O prognóstico melhorou significativamente desde a aprovação do metreleptina, mas o diagnóstico tardio continua sendo o maior fator de mau desfecho. Crianças com fenótipo típico muitas vezes são identificadas precocemente, mas formas atípicas ou leves podem permanecer não diagnosticadas até o início de complicações metabólicas na vida adulta. Se você atende um paciente com suspeita, o teste genético deve ser solicitado sem demora — a janela para iniciar metreleptina antes do estabelecimento de diabetes franca e esteatose avançada faz diferença clinicamente mensurável.