O que acontece quando o coração bombeia sangue
A sístole e diástole do coração são duas fases do ciclo cardíaco que todo estudante de fisiologia aprende no primeiro semestre. A sístole é a contração do músculo cardíaco que ejeta o sangue para fora das câmaras. A diástole é o relaxamento que permite o preenchimento dessas mesmas câmaras com sangue. Simples assim, mas a complexidade mora nos detalhes. Acho que a maioria das pessoas entende isso na teoria, mas poucos realmente percebem como essas fases se conectam até olharem para um traçado de ecocardiograma ou um kateter intracardíaco. Quando você vê pela primeira vez o ventrículo esquerdo se contraindo e relaxando centenas de vezes por dia, começa a entender que não é um mecanismo simples de liga e desliga. É um processo dinâmico com várias subfases.
Sístole e diástole do coração: entendendo o ciclo na prática
O ciclo cardíaco completo dura cerca de 0,8 segundos em um coração em repouso com frequência de 75 batimentos por minuto. Quando a frequência sobe para 150 bpm, como acontece durante exercício intenso, esse ciclo cai para aproximadamente 0,4 segundos. O tempo de diástole encurta muito mais do que o tempo de sístole. Isso é importante porque a perfusão coronariana ocorre predominantemente durante a diástole. Dentro da sístole ventricular, existem cinco subfases que valem a pena conocer: a isovolumétrica de contração, a ejeção rápida, a ejeção reduzida, a isovolumétrica de relaxamento e a fase de preenchimento rápido. Cada uma delas tem assinaturas específicas que aparecem na pressão intraventricular e no fluxo sanguíneo.
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Quando eu estava na residência, me deparei com um paciente com estenose aórtica grave que tinha uma sístole anormalmente longa e uma diástole encurtada. O ecocardiograma mostrou um gradiente transaórtico de 65 mmHg e uma fração de ejeção preservada, mas o paciente apresentava síncope. O problema não era a fração de ejeção em si. Era o tempo de ocupação da diástole que ficou insuficiente para manter o débito cardíaco adequado durante esforço. A solução foi a troca valvar, mas antes disso tivemos que ajustar a medicação com muita cautela porque betabloqueadores poderiam piorar ainda mais o tempo de preenchimento. O que pouca gente enfatiza é que a diástole não é apenas um período passivo de preenchimento. Ela tem atividade ativa. A relaxação ativa do miocárdio consome ATP. A propriedade elástica do coração, a diástole tardia impulsionada pela contração atrial, e a complacência ventricular são fatores que determinam quão eficiente é o enchimento. Se a complacência diminui, como na hipertensão arterial mal controlada que leva a hiprofia ventricular esquerda, o ventrículo precisa de pressões de enchimento mais altas para manter o volume sistólico. Isso é a chamada diastole disfunção, e ela pode estar presente mesmo quando a fração de ejeção está normal.
Um erro comum que vejo frequentemente é confundir sístole com ejeção. A sístole começa antes da ejeção. A fase isovolumétrica de contração é parte da sístole, e nela todas as válvulas estão fechadas. A pressão ventricular sobe rapidamente sem mudança de volume até que supere a pressão aórtica e a válvula aórtica se abra. Essa nuance parece bobagem, mas faz diferença quando você está interpretando cateterismo ou analisando hemodinâmica avançada. Outro ponto que os livros tratam de forma superficial é a relação entre a sístole e a diástole do átrio. A sístole atrial contribui com cerca de 20 a 30 por cento do volume de enchimento ventricular em condições normais. Esse percentual pode chegar a 40 por cento em situações de rigidez ventricular aumentada. Perder o ritmo sinusal, como na fibrilação atrial, não é indiferente. Pode reduzir significativamente o débito cardíaco, especialmente em pacientes com doença valvar ou hipertrofia ventricular prévia.
Se você está estudando para prova ou tentando interpretar exames na prática, o recomendado é conseguir ver o ecocardiograma dinâmico junto com o Doppler. A imagem M-mode mostra as fases, mas o Doppler tecidual e o Doppler de fluxo mitral dão informações sobre as velocidades de relaxamento e preenchimento que a imagem estática não mostra. Existe um aplicativo chamado CardioCoach que tem um módulo bom para visualizar o ciclo cardíaco em tempo real com sincronia entre o ECG e o ecocardiograma. O download é gratuito na App Store e Google Play. A limitação mais séria desse modelo é que ele assume um coração saudável em repouso. Em arritmias, em valvopatias, em cardiomiopatias restritivas ou obstrutivas, as fases se sobrepõem de formas imprevisíveis. A sístole pode se estender, a diástole pode se fragmentar. Nesses casos, a análise apenas com base nas definições tradicionais de sístole e diástole do coração perde o valor clínico. O ideal é recorrer à avaliação hemodinâmica invasiva com cateter de Swan-Ganz quando a situação permitir, ou pelo menos a um ecocardiograma com Doppler avançado feito por alguém com experiência em ecocardiografia quantitativa.