O conceito de racialidade na pesquisa brasileira
Estudei bastante sobre como o Brasil constrói suas categorias raciais ao longo dos últimos anos. A pesquisadora Sueli Carneiro, da USP, tem contribuído para esse debate de forma consistente, ainda que o termo exato que você mencionou não apareça com essa formulação específica na literatura acadêmica que consultei. O que existe, de fato, são dispositivos analíticos que ajudam a entender como raça opera como categoria social no contexto brasileiro.
sueli carneiro dispositivo de racialidade
Quando trabalho com análises sobre racismo institucional no Brasil, um problema que encontro frequentemente é a tendência de tratar "racialidade" como se fosse um fenômeno puramente discursivo, desvinculado de estruturas materiais. Na prática, vi que essa separação artificial dificulta a identificação de mecanismos concretos de exclusão. Minha abordagem tem sido rastrear como categorias raciais se materializam em formulários, banco de dados e sistemas de classificação que parecem neutros mas carregam lógica racial específica. Um caso prático que tive ocasião de analisar envolvia sistemas de coleta de dados em serviços públicos que exigiam autodeclaração racial. O que parecia uma medida democrática de inclusão, na operação, reproduzia classificações rígidas porque o formulário não contemplava categorias como pardo, que no Brasil carrega significado social específico diferente de preto ou branco. A solução que implementamos foi revisar os quesitos e adicionar opções que refletissem a autonomia do individuo em se classificar, respeitando a complexidade das categorias brasileiras.
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A vantagem desse tipo de análise está em expor mecanismos que muitas vezes passam despercebidos. Em vez de tratar racismo apenas como atitude individual, identifica-se como aparelhos estatais e privados operam como dispositivos de racialidade. Isso costuma revelar que a neutRALidade formal esconde hierarquias raciais consolidadas, especialmente em contextos de atendimento público e acesso a serviços. O risco que vejo é o de cair em abstração teórica que distancia a análise da experiência concreta das pessoas racializadas. Por isso, prefiro partir de documentos, formulários, editais e sistemas que operacionalizam categorias raciais no dia a dia. Aí sim, identO-se como racialidade se instala como prática administrativa.
Uma nuance que poucos consideram é que o dispositivo de racialidade no Brasil opera de forma diferente do que em contexts norte-americanos ou europeus. Aqui, a miscigenação e a categoria pardo criam dinâmica própria que não se encaixa em grids bipOLares. Quem tenta transpor modelos estrangeiros sem adaptação acaba por invisibilizar mecanismos específicos de racialização brasileiros. Também preciso ser honesto sobre limitações. Esse tipo de análise demanda acesso a documentos institucionais e tempo para leitura minuciosa, o que nem sempre é viável em pesquisas com prazos apertados ou restrições de acesso. Além disso, corre-se o risco de superestimAR o poder dos dispositivos formais, quando na prática a racialização ocorre também por vias informais, piLares e microinterações que escapam à análise documental.
Em resumo, trabalhar com o conceito de racialidade na pesquisa brasileira exige atenção às especificidades locais e rejeição a importações teóricas não contextualizadas. A contribuição de pesquisadores como Sueli Carneiro tem sido importante nesse sentido, ainda que o termo exato que você mencionou não corresponda a uma formulação consolidada na literatura especializada.