Sueli Carneiro Epistemicidio - Do Epistemicídio - Sueli Carneiro | PDF | Conhecimento | Brasil
Do Epistemicídio - Sueli Carneiro | PDF | Conhecimento | Brasil

Epistemicidio e o pensamento de Sueli Carneiro

O conceito de epistemicidio ganhou força no Brasil quando Sueli Faria Carneiro, matemática e filósofa negra, começou a usar o termo para descrever o apagamento sistemático de saberes produzidos por populações marginalizadas. Ela não inventou a ideia do zero. Boaventura de Sousa Santos já havia discutido as ausências e a sociologia das ausências, mas foi a partir da experiência brasileira concreta que Sueli Carneiro deu ao conceito um contorno diferente. O que ela mostra é que o epistemicidio no Brasil tem uma geometria própria: não se limita ao colonialismo clássico, atravessa racismo, classe e gênero simultaneamente.

o que entende por sueli carneiro epistemicidio na pratica

No trabalho dela, epistemicidio não é só censura ou ignorância passiva. É um processo ativo de destruição de formas de conhecimento. Quando uma mulher negra é despejada de sua autoridade epistêmica porque não encaixa nos critérios eurocêntricos de racionalidade, isso já é epistemicidio em andamento. Ela observa isso no cotidiano escolar brasileiro, na forma como currículos ignoram produções filosóficas e científicas negras, na forma como o saber popular é tratado como folclore e não como conhecimento válido. Um detalhe que eu percebi quando trabalhei com pesquisa educacional em escolas públicas de Sao Paulo é que o epistemicidio raramente vem em forma de proibição explícita. Vem em forma de naturalização. Ninguém te diz que o conhecimento de talvora é inferior. Simplemente ele não aparece nos livros didáticos, não é cobrado nas provas, não é citado nas universidades. A ausência opera como uma violência silenciosa. Eu costumava usar uma tatica simples: mapear quais vozes estavam faltando em qualquer antologia que eu analisasse. Geralmente, mais da metade dos nomes que eu esperava encontrar simplesmente nao estavam la.

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Sueli Carneiro conecta isso diretamente com a violencia contra mulheres negras. O epistemicidio não para no saber. Quando você mata o conhecimento de uma comunidade, você tambem mata a pessoa que produz esse conhecimento. A linha entre violência epistêmica e violência fisica é mais fina do que pareoe. Ela usa o termo para criticar modelos educacionais que impõem uma racionalidade unica como se fosse neutra, quando na verdade ela carrega visao de mundo de quem ocupa posicoes de privilegio. O conceito também se relaciona com o que ela chama de racismo estrutural na producao do conhecimento. Pesquisadores negros enfrentam barreiras para publicar, para ser citados, para obter financiamento. Isso não é um efeito colateral. É o funcionamento normal do sistema. A matemática que ela pratica mostra que os indicadores de desigualdade na academia brasileira se mantêm estáveis ha décadas, independentemente de programas de cota ou iniciativas pontuais.

Ha uma nuance importante que poucos percebem: o epistemicidio pode ser Seletivo. Nao se apaga todo conhecimento negro de uma vez. Apaga-se o que ameaça a hierarquia existente. Saberes que nao desafiavam a ordem social podem ser folklorizados e ate celebrados como diversidade, desde que nao ponham em questao a distribicao de poder epistêmico. Eu observei isso em disciplinas de filosofia onde autores negros eram citados apenas quando falavam de identidade e nao quando faziam crítica teorica rigorosa. A contribuicao de Sueli Carneiro está exatamente em mostrar que o epistemicidio é um mecanismo de manutencao do racismo. Sem ele, seria mais dificil sustentar a ideia de superioridade intelectual de certos grupos. A destruição do conhecimento alheio mantém a ilusao de que o saber produzido pelos dominantes é universal quando na verdade é parcial e particular.