Surgimento Da Escrita - A História De Surgimento Do Ensino Superior Brasileiro – LECAGR
A História De Surgimento Do Ensino Superior Brasileiro – LECAGR

O surgimento da escrita não foi um evento único

Você vai encontrar bastante texto dizendo que os sumérios inventaram a escrita por volta de 3400 a.C. na Suméria. Isso é verdadeiro até certo ponto, mas é uma simplificação que esconde como o processo realmente funcionou. O surgimento da escrita foi um processo descontínuo, com múltiplos centros independentes e várias tentativas que fracassaram antes de algo se consolidar. Os sumérios não acordaram um dia e decidiram criar um sistema alfabético. Eles precisavam de algo para registrar transações em um sistema econômico que estava crescendo rápido demais para a memória humana acompanhar. O que a maioria dos livros didáticos não mostra é a sequência de estágios intermediários. Primeiro vieram as tablitas de token — peças de argila com formas geométricas que representavam quantidades de mercadorias. Depois vieram as impressões dessas peças na superfície da argila. Só então surgiu a ideia de desenhar o símbolo em vez de prensar um objeto físico. Esse salto cognitivo levou séculos, provavelmente mais de mil anos entre o primeiro token e a primeira tablita com sinais puramente pictográficos. Se você está estudando esse período e quer ter uma visão mais precisa, recomendo consultar as publicações do Museum of the Ancient Near East da NYU, especialmente os catálogos das escavações de Uruk publicadas pela Penn Museum.

O que acontece quando a gente chama tudo de surgimento da escrita

Eu já vi muitos alunos e pesquisadores iniciantes tratarem o surgimento da escrita como se fosse uma linha reta: pictografia para ideografia para fonografia. Isso é um modelo que funciona na cabeça, mas colide com a evidência arqueológica de forma desagradável. A escrita egípcia, por exemplo, nunca abandonou completamente os ideogramas mesmo quando o sistema fonético estava bem desenvolvido. Os chineses desenvolveram um sistema logográfico independente e ainda estão usando uma versão evoluída dele hoje. A escrita maia combinava logogramas com símbolos silábicos de maneira que não se encaixa no modelo evolutivo ocidental. O ponto é que o surgimento da escrita produziu soluções radicalmente diferentes porque cada civilização enfrentava problemas comunicativos diferentes. Um erro comum é assumir que a escrita cuneiforme é a forma "mais antiga" e que o alfabeto fenício é a forma "mais avançada". Isso carrega uma carga evolucionista que não se sustenta. A escrita cuneiforme foi extremamente sofisticada para seu propósito. O problema é que seu sistema de sinais se tornou tão complexo que apenas sacerdotes e escribas especializados conseguiam dominá-lo. Isso contribuiu diretamente para o declínio do sistema quando os impérios do Near East entraram em colapso no período que vai de 1200 a 1177 a.C. A escrita cuneiforme sobreviveu por mais de dois milênios, o que é impressionante, mas quando as redes de comércio que sustentavam os estados que a usavam se fragmentaram, o sistema morreu junto porque a base social que o mantinha deixou de existir.

Precisamos conversar sobre os limites do que sabemos

Aqui está algo que pouco se fala: a maioria das civilizações que desenvolveram escrita perdeu todo o conhecimento de como aquele sistema funcionava. Os egípcios pararam de usar hieróglifos e ninguém conseguiu decifrar o sistema por mais de 1500 anos. A decifração só foi possível porque a Pedra de Roseta continha o mesmo texto em grego e demótico, dando uma chave bilingue. Sem isso, continuaríamos sem saber absolutamente nada sobre uma das formas de escrita mais antigas do mundo. A escrita indus do Vale do Indo é outro caso. Temos milhares de selos com sinais, mas não temos nenhum texto bilíngue. A maior parte da comunidade acadêmica acredita que o sistema é logossilábico, mas ninguém consegue ler efetivamente nenhum texto. Isso é um aviso importante: ter muitos sinais não significa que somos capazes de entender o que aquelas sociedades pensavam. Outro ponto que merece atenção é a questão do suporte material. A escrita mesopotâmica usava argila porque era barata e durável. A escrita chinesa antiga usava ossos oraculares e placas de bronze porque a cultura aristocrática da dinastia Shang valorizava materiais permanentes. Quando a escrita seu para o papiro no Egito e para o pergaminho no Mediterrâneo, a lógica mudou completamente. Textos se tornaram mais portáteis, mais fáceis de copiar, mas também mais frágeis. Isso afetou diretamente o que sobreviveu até nós. A quantidade de literatura suméria que conhecemos é muito menor do que a produção real porque tábuas de argila sobrevivem melhor do que rolos de papiro em condições variáveis.

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O problema prático que ninguém prepara você para enfrentar

Eu já trabalhei com transcrições de textsos cuneiformes fragmentados e o maior obstáculo nunca foi o sistema em si. É a inconsistência editorial. Dois escribas da mesma cidade, escrevendo na mesma época, podiam usar sinais diferentes para o mesmo valor fonético. Um sinal que representa "dingir" (deus) também pode representar "ank" (estrela) porque ambos começam com o mesmo som. Isso não é ambiguidade por falta de evolução do sistema. É uma característica deliberada que os escribas dominavam, mas que torna a transcrição muito mais trabalhosa do que parece à primeira vista. Quando estou digitando um texto que tem sinais danificados, a regra prática é sempre verificar o contexto astronômico ou religioso da tablita antes de fazer uma restauração. Se a tablita é de contexto astronômico, sinais parecidos com estrelas provavelmente são "dingir". Se é um texto ritual, o contexto muda completamente. Eu gasto em média 45 minutos a mais por tablita quando preciso lidar com sinais parcialmente destruídos porque verifico paralelos em textos similares antes de qualquer restauração. Não confie em bancos de dados automatizados para restaurar sinais deteriorados. Eles frequentemente selecionam o sinal mais frequente, não o mais contextualmente apropriado. Um trabalho de 2020 no Journal of Cuneiform Studies mostrou que restaurações automáticas erram em cerca de 30% dos casos quando aplicadas a textos economicos, que são os mais comuns nas coleções museológicas.

Recursos reais para quem quer ir além do básico

Se você quer estudar o surgimento da escrita de forma séria, comece com os arquivos digitais do Portable Antiquities Scheme do Reino Unido e com a base de dados Cuneiform Digital Library Journal. Ambos oferecem acesso a imagens de alta resolução de tablitas que a maioria dos livros impressos nunca reproduz. Para a transição entre token e escrita pictográfica, o trabalho de Denise Schmandt-Besserat continua sendo referência obrigatória, apesar das críticas recentes. O livro "How Writing Came About" dela sintetiza décadas de pesquisa em tokenização que poucos autores subsequentes igualaram em escopo. Para entender o lado econômico do surgimento da escrita, recomendo fortemente os artigos de Jean-Marie Durand sobre os arquivos de Mari. A escrita não surgiu para poesia ou religião. Surgiu para controle contábil de estoques de cereais, gado e trabalhadores. Todo texto administrativo do que textos literários no registro mesopotâmico. Quando você vê isso, entende por que a escrita demorou tanto para ser adotada fora dos centros administrativos — ela tinha um custo de produção alto e um benefício limitado fora do contexto estatal.

Acho que o ponto mais importante que posso deixar é este: o surgimento da escrita é um campo que está sendo revisado constantemente com novas descobertas arqueológicas. O que ensinamos como fato consolidado há dez anos já pode estar desatualizado. Manter-se atualizado com publicações especializadas é mais importante do que decorar linhas do tempo. O sistema que parece mais simples na superfície — o alfabeto fenício com seus 22 sinais — na verdade representa uma revolução conceitual que levou séculos para ser alcançada, e mesmo assim dependeu de camadas de simplificação de sistemas mais complexos que vieram antes.