Temas De Cordel - 10 exemplos de cordel para conhecer literatura popular - Toda Matéria
10 exemplos de cordel para conhecer literatura popular - Toda Matéria

O que você precisa saber sobre temas de cordel antes de começar a escrever

Você já deve ter visto aqueles livrinhos vernáculos empilhados em feiras no Nordeste, com capas coloridas e xilogravuras. Isso é literatura de cordel. O tema é o que vai determinar se seu folheto consegue ou não vender. Eu já passei bastante tempo mexendo com isso, desde tentativas frustradas nos anos 2000 até publicar alguns exemplares que realmente fizeram circulação. A coisa mais importante pra quem tá começando entender logo: temas de cordel funcionam por regra, não por inspiração. Quando eu comecei a escrever cordel, cometi o erro clássico de achar que precisava inventar algo original. Escrevi uma sátira política sobre um prefeito imaginário num município pequeno do sertão. Ninguém comprou. Não porque era ruim escrito, mas porque não existia demanda. O mercado de cordel opera com temas que já têm procura consolidada. Você não vai criar o sucesso, você vai seguir a trilha que os leitores já estão buscando.

Temas de cordel que vendem de verdade

Os temas mais vendidos se encaixam em categorias muito específicas. A lista abaixo não é inventada minha, é o que aparece nos catálogos das gráficas de Campina Grande e Recife ano após ano: 1. Cangaço e figuras históricas do sertão – Lampião, Maria Bonita, Severino Moreno, Corisco. Esse ramo nunca seca. Tem mercado garantido porque quem lê cordel muitas vezes já tem familiaridade com essas histórias desde criança.

2. Santidade e temas religiosos – Frei Damião, Padre Cícero, Santa Brígida, Nossa Senhora. O público nordestino responde muito bem a esse tipo de conteúdo. Folhetos sobre milagres e promessas são best-sellers sazonais, especialmente perto de festas juninas e peregrinações. 3. Fatos noticiosos recentes – Desastres naturais, crimes locais, desaparecimentos, episódios policiais. Aqui entra uma particularidade: o folheto precisa sair rápido. Eu fiz um sobre um deslizamento de terra no Cariri cearense e levei três semanas pra terminá-lo. Quando finalizei, o interesse já tinha acabado. A janela de oportunidade pra esse tipo de tema é de semanas, não meses.

4. Sátiras e humor regional – Piadas com tipos humanos do Nordeste, conflitos entre cidades vizinhas, críticasleve ao cotidiano. Esse formato é mais flexível quanto a prazos, mas exige domínio da métrica e da rima pra funcionar. Sem técnica, vira proseirinha sem graça. 5. Romance e tragédia – Histórias de amor impossível, traição, morte por ciúmes. São os chamados "romances de capa e tradutor". Funcionam porque o leitor já sabe o que vai encontrar antes de comprar. É um produto de expectativa cumprida.

A estrutura métrica que determina se seu folheto é cordel ou só poesia rimada

Quase todo iniciante errou isso na primeira vez. Escreve seis versos bonitos com rimas perfeitas e acha que já tem um cordel pronto. Não tem. O cordel exige estrutura fixa. As mais usadas são sextilhas (seis versos), redondilhas maiores (dez sílabas poéticas) e septilhas. A séptima quatrilha (versos de sete sílabas poéticas) é a mais común nos folhetos populares. Uma sílaba poética não é a mesma coisa que uma sílaba gramatical. O "e" final de uma palavra átona é frequentemente aglutinado à sílaba seguinte. Isso muda completamente a contagem. Eu fiquei dois meses travado num folheto porque as sílabas nunca batiam. A solução foi usar o método de silabação poética clássica: contar até a última vogal tônica do verso e ignorar o que vem depois. Se o verso é "o vento forte do sertão", a sílaba poética para no "çã" de sertão, porque o "n" final não conta. Deu pra entender a diferença?

O rimado também tem regras próprias. A sextilha classicamente segue o esquema ABCBDB. A quartilha, ABBA ou ABAB. Quebrar essas esquemas sem propósito estético claro é o jeito mais rápido de um folheto parecer amador. Eu vi muito poeta iniciante trocar a ordem das rimas achando que estava sendo "criativo". O mercado não vê criatividade aqui. Vê erro técnico.

Como eu resolvi o problema da xilogravura quando não tinha verba

Um folheto de cordel sem capa gravada não passa credibilidade. A xilogravura é parte essencial da estética do gênero. Quando eu queria publicar meu segundo folheto, em 2008, eu não tinha dinheiro nem pra uma gravura profissional. A gráfica cobrava algo em torno de 400 reais pela madeira entalhada mais a impressão das capas. Eu tinha 80 reais no bolso. A solução que encontrei foi procurar artesãos que trabalhavam com madeira mas não conheciam o meio cordelístico. Encontrei um senhor em Campina Grande que fazia brinquedos tallhados em madeira de juazeiro. Combinamos que ele faria a placa de capa por um preço reduzido, e eu levaria as imagens de referência impressas pra ele como guia. O resultado ficou aceitável pra época, nada próximo do trabalho de artistas consagrados como J. Borges ou Zé Cabria, mas suficientemente bom pra circular. O ponto importante é que o folheto precisava ter aparência de folheto. Capa simples e sem gravura afasta o comprador na hora.

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Se você está começando sem orçamento, alternativas existem. Alguns poetas regionais usam gravura digital impressa em papel couché comum, colada na capa. Não é o mesmo nível visual, mas functiona como preenchimento de espaço. O importante é não entregar o produto com a capa em branco.

Pegadinhas que ninguém conta sobre publicação de cordel

Tem dois detalhes práticos que vão te dar trabalho se você não souber antes: O tamanho padrão do folheto é pequeno. A maioria circula em formato aproximado de 11 por 17 centímetros, dobrado ao meio. Isso significa que cada "página" na verdade é uma folha inteira impressa dos dois lados e dobrada. Se você escreve para caber em A4 pensando que vai virar várias páginas, vai se enganar. O espaçamento de texto em cordel costuma ser generoso, com margens largas. Um folheto de 32 páginas (16 folhas dobradas) com versos de sete sílabas poéticas em letra legível raramente ultrapassa 1.500 versos no total.

Distribuição é mais importante que qualidade literária. Eu já vi folhetos tecnicamente impecáveis que não saíram da estante do autor. Já vi outros com rimas improvisadas que foram copiados e distribuídos em três estados diferentes. O canal de distribuição define mais o sucesso do que o texto em si. Feiras, barracas de artesanato, lojas de productos regionais e pontos de venda perto de igrejas são os lugares que movimentam o gênero. Quem não tem acesso a esses canais acaba publicando pra si mesmo. Outro ponto que poucos mencionam: o preço de venda. Folhetos vendidos abaixo de cinco reais não sustentam o trabalho do autor. Acima de quinze reais, o mercado restringe drasticamente. O ponto ideal de venda em feiras do interior fica entre sete e doze reais, dependendo da quantidade de páginas e da qualidade da impressão. Se você está fora das regiões Nordeste, o preço pode ser ligeiramente maior porque a logística encarece o produto final.

Quem são os autores e obras que você deve estudar antes de publicar

Eu recomendaria quatro nomes como ponto de partida obrigatório: Cora Coralina, antes de ficar famosa como contista, escreveu versos de cordel nos anos 1950 em Goiânia. A abordagem dela mostra como temas do cotidiano doméstico podem ganhar relevância literária sem perder a acessibilidade.

Juan da Silveira Dias, o Zé Cabria, foi xilogravador e poeta. Estudá-lo é importante porque ele entende o folheto como objeto completo, não apenas como texto. A relação entre imagem e palavra é o diferencial de quem leva o gênero a sério. Leandro Gomes de Barros, considerado o pai do cordel escrito no Brasil. Lição histórica, mas também prática: ele dominou a métrica de forma tão consistente que seus versos podem ser recitados até hoje sem perda de ritmo.

Patativa do Assaré. A figura mais importante do cordel nordestino contemporâneo. Ouça as gravações dele, não apenas leia os textos. O desempenho oral do cordel é tão importante quanto a versão escrita. A entoação, as pausas, a forma como as rimas são destacadas — tudo isso faz parte do gênero.

Qual é o formato de publicação mais viável hoje em dia

Se você tem pouco dinheiro e quer testar o mercado sem investir numa tiragem longa, considere a impressão sob demanda. Gráficas online no Brasil oferecem serviços de impressão de folhetos pequenos a partir de tiragens de vinte a cinquenta exemplares. O custo unitário sobe considerablemente comparado a uma gráfica de Campina Grande que imprime mil cópias de uma vez, mas o risco financeiro cai quase a zero. A opção oposta também existe: imprimir em casa usando papel mais grosso (gramatura 90 ou superior) para as capas, e papel sulfite comum para o miolo. Eu fiz essa economia em vários momentos da minha carreira. O resultado não rivaliza com a impressão profissional, mas serve para distribuircirculação inicial, provas de conceito e versões para amigos e conhecidos. O público real só considera o folheto genuíno quando ele tem aparência de produto acabado.

Existe ainda a via digital. Páginas de cordel em PDF circulam bastante em fóruns e grupos regionais. A desvantagem é que isso não gera renda direta. Mas pode ser útil como material promocional ou como forma de fixar seus versos antes da versão impressa definitiva. Se você publicar online antes, também evita que alguém copie sua obra e publique antes de você, algo que já aconteceu comigo em 2012 com um romance sobre a seca no sertão paraibano. Resumindo, tem muitas coisas pra considerar antes de escrever o primeiro verso. A métrica, a distribuição, a viabilidade econômica, os temas do mercado. O gênero não perdoa amadores, mas também não é fechado. Quem domina a técnica e entende o mercado consegue produzir com consistência. O que não dá pra negar é que isso exige dedicação, estudo dos clássicos e, principalmente, muita prática de contagem silábica antes de qualquer publicação.