Como dominar those e these sem perder horas em regras que ninguém usa
A maioria dos material didáticos trata those e these como se fossem simplesmente o plural disto e aquilo. Isso funciona até você tentar escrever um email profissional ou explicar uma ideia mais complexa, quando a coisa começa a falhar. Na prática, a diferença não é só sobre distância física — é sobre distância cognitiva, algo que raramente é explicado nos cursos. Vou mostrar como isso funciona de verdade, baseado no que eu vi pessoas fazerem (e errarem) repeatedly ao longo dos anos. Nada de teoria pura.
Those and these: a diferença que todo mundo explica errado
A explicação básica diz que "this/these" se referem a algo próximo e "that/those" a algo distante. Próximo e distante do quê? Do falante. Punto. Mas a parte que falta é: próximo e distante também são conceitos psicológicos, não só espaciais. Por exemplo, digamos que você está em uma reunião e aponta para uma planilha na tela do projetor atrás de você. Tecnicamente, está longe. Mas se essa planilha é o foco da conversa, todo mundo vai usar "these numbers" em vez de "those numbers". A proximidade temática supera a distância física. Isso é o que chamamos de conceptual deictic center — o centro de deixo conceitual. O falante move o ponto de referência mental para o assunto, independente da posição física.
Já vi gente trava nesse ponto. Um colega meu, desenvolvendo uma API, tinha que documentar dois conjuntos de parâmetros: os que estavam na versão atual da API e os que seriam introduzidos na próxima versão. Ele usava "these parameters" para os atuais e "those parameters" para os futuros. Funcionou perfeitamente porque a lógica conceitual estava clara: os atuais eram o "agora", os futuros eram o "lá". Simples assim, mas só depois de bater cabeça é que a coisa encaixou.
A regra prática que funciona na vida real
Em vez de decorar tabelas, pense assim: these indica que o ouvinte já tem acesso ao referente ou que você está prestes a apresentá-lo. Those indica que o referente existe mas está fora do foco imediato, seja por distância física, temporal ou temática. Veja alguns exemplos concretos:
"I love these songs you picked" — as músicas estão tocando agora, ou você as acabou de selecionar. O ouvinte consegue "enxergar" o referente. "Those songs we heard last year" — referência a algo no passado, distante no tempo. O ouvinte precisa recuperar da memória.
"These findings suggest..." — os achados estão na frente de você, no relatório que está sendo discutido. "Those findings from the 2019 study" — estudo específico do passado, citado de longe, como referência externa.
A armadilha mais comum é o uso de those para pessoas. Todo mundo erra. Dizer "those people" soa imediatamente rude ou hostil em inglês, mesmo que sua intenção seja neutra. "Those people at the front desk" transmite desconfiança ou distanciamento emocional. Se você quer ser neutro, use "the people" ou simplesmente reestruture a frase. Isso não é gramática — é pragmática social, e os nativos sentem na hora.
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Um caso real que quase me custou um contrato
Eu estava revisando um contrato de prestação de serviços com um cliente britânico. Na seção de escopo, eu tinha escrito "these deliverables will be submitted weekly" me referindo aos entregáveis listados na cláusula anterior. O cliente retornou com uma observação: deveria ter usado "the deliverables" em vez de "these". Ele argumentou que, como os entregáveis já haviam sido enumerados formalmente no documento, o uso de "these" criava uma proximidade desnecessária que implicava que eu os estava apresentando naquele momento, e não apenas os referenciando. No começo achei que fosse detalhe. Mas fazia sentido. Quando você já enumerou os itens com numeração formal (1.0, 2.0, 3.0), o demonstrativo perde a função de "apresentar" e vira marcação de coesão textual. Nesse contexto, "the deliverables" era mais preciso porque os itens já eram entidades estabelecidas no discourse, não elementos que precisavam ser aproximados.
A correção foi simples. Troquei "these deliverables" por "the deliverables" e ajusteí duas outras ocorrências similares no documento. O contrato foi aprovado sem novas objeções. Aprendi que, em textos formais e contratuais, o uso de demonstrativos exige muito mais cuidado do que em conversas do dia a dia — cada um carrega uma carga pragmática que pode mudar a interpretação de uma obrigação.
Insights contra-intuitivos que pouco conhecimento traz
Primeiro: those pode funcionar como substituto de "the + plural" em contextos informais, mas com nuance diferente. "I don't trust those guys" não é o mesmo que "I don't trust the guys". O primeiro carrega julgamento; o segundo é informativo. Em contextos profissionais, essa diferença é crucial. Segundo: em inglês americano, these é muito mais frequente do que em inglês britânico para marcar pertinência. Um americano pode dizer "I have these questions about the report" numa situação em que um britânico provavelmente diria apenas "I have questions about the report". O britânico vê "these questions" como redundante se as questões ainda não foram especificadas. O americano usa "these" para criar engajamento — como se estivesse puxando as perguntas para o campo do ouvinte. Não está errado de nenhum dos lados, mas usar o padrão errado no contexto errado soa estranho.
Terceiro: those funciona como marcador de citação indireta. "I didn't say those words" é diferente de "I didn't say that". O primeiro refere-se a palavras específicas, enumeradas ou citáveis; o segundo é uma negação genérica. Essa distinção é quase invisível para aprendizes mas extremamente presente na fala nativa.
Onde isso não funciona (e o que fazer nesses casos)
Há situações em que a lógica conceitual de those e these colapsa. O principal é em textos acadêmicos formais, especialmente em áreas como direito e medicina, onde o uso de demonstrativos pode ser interpretado como tendencioso. Revisores de periódicos científicos frequentemente pedem a remoção de "these" e "those" em favor de artigos definidos ou reestruturações da frase, justamente para evitar qualquer leitura de viés ou proximidade não intencional. Se você está escrevendo para publicação acadêmica ou documentos legais, a recomendação é simples: minimize o uso de demonstrativos. Use "the" quando possível, e reserve "these/those" apenas para diferenciação genuína entre grupos. Em textos criativos, emails informais e comunicações do dia a dia, a flexibilidade é maior.
Outro cenário problemático: conteúdo gerado por IA. Modelos como eu tendem a superutilizar "these" porque a training data inclui muito material didático e traduções literais do português. Se você está revisando texto produzido por ferramenta de IA, preste atenção especial a usos de "these" que soam excessivamente conectados ao falante — muitas vezes é sinal de calque do português "estes/esses".
Resumo prático sem firula
Use these quando o referente estiver disponível no contexto imediato do ouvinte — seja fisicamente, temporalmente ou tematicamente. Use those quando o referente existir mas estiver deslocado do foco atual. Cuidado com those para pessoas em contextos profissionais. Prefira "the" em textos formais. E lembre-se: a distância não é só espacial, é cognitiva. O contexto dita, não a geografia.