O que significa "todes" no português
A palavra "todes" é um pronome ou determinante neutro em português, criado para substituir o masculino genérico "todos" quando se deseja incluir pessoas de todas as identidades de gênero, sem usar o gênero masculino como norma universal. Surgiu dentro de discussões sobre linguagem neutra e inclusiva, especialmente em comunidades LGBTQIA+ e em espaços acadêmicos de estudos de gênero. Na prática, troca-se o "-o" final do masculino e o "-a" do feminino pelo "-e", resultando em "todas", "todos" virando "todes". Não se trata de uma inovação recente sem base. O português já possui mecanismos gramaticais para flexão de gênero, e a variação "-e" é uma extensão lógica desses padrões, semelhante ao que acontece com palavras como "jovem" (que já é comum aos dois gêneros) ou "mestre" (que pode ser usado de forma neutra em certos contextos). O uso de "todes existe na língua portuguesa" como tema de debate reflete justamente essa tensão entre a norma culta tradicional e as necessidades comunicativas de grupos que se sentem excluídos pelo uso do masculino como padrão.
Todes existe na língua portuguesa
Sim, a palavra existe no sentido de que é utilizada por falantes reais, em textos publicados, em redes sociais, em documentos acadêmicos e em movimentos sociais. Não existe, porém, como termo consagrado pelos dicionários tradicionais como o Houaiss ou o Aurélio. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) do Portal da Língua Portuguesa também não a registra ainda. Isso não a torna inválida — muitas palavras ganharam status normativo décadas após seu uso popular — mas explica por que há resistência institucional ao termo. O que acontece na prática é que "todes" funciona como um recurso comunicativo claro. Qualquer falante nativo de português entende perfeitamente o que significa. A ambiguidade é praticamente inexistente. O problema não está na compreensão, mas na legitimidade normativa. E essa legitimidade depende de fatores sociológicos, não linguísticos.
Como usar "todes" corretamente
O uso de "todes" segue as mesmas regras de concordância que os pronomes e adjetivos existentes em português. Ele varia em número (singular/plural) mas não em gênero, já que a proposta é justamente neutralizar o gênero. Assim, temos: No plural: "todes" (equivalente a "todos/todas"), "destes" "destes" (já neutro), "nesse" "nese" (em propostas mais radicais de neutrização). O mais comum e aceito é simplesmente substituir "todos" e "todas" por "todes".
Em frases: "Todes foram convidados para o evento." Em vez de "Todos foram convidados" ou "Todas foram convidadas", usa-se "todes" para evitar marcar um gênero como padrão. Outro exemplo: "Necessitamos da ajuda de todes" em vez de "de todos" ou "de todas". Um detalhe importante que poucos mencionam: o uso de "todes" não exige que se neutrilize todo o discurso. É perfeitamente consistente usar "todes" em alguns contextos e manter a concordância tradicional em outros, dependendo do nível de formalidade e do público-alvo. Em um documento jurídico, por exemplo, o uso pode gerar contestação. Em um manifesto político ou em um post de rede social, é amplamente compreendido e aceito.
Contexto histórico e aceitação
A discussão sobre linguagem neutra em português não é nova. Há registros de uso de formas neutras em gírias e em variantes dialetais brasileiras desde pelo menos os anos 1980, especialmente em comunidades de teatro, movimentos sociais e subculturas urbanas. O pronome "elle" (com double L) também apareceu em publicações acadêmicas e literárias antes de "todes" se popularizar nas redes. O que mudou recentemente foi a visibilidade. Com o aumento da discussão sobre identidade de gênero na sociedade brasileira e portuguesa, termos como "todes" ganharam espaço em materiais de divulgação de ONGs, em editais universitários e em comunicados oficiais de algumasprefeituras e instituições de ensino. Na Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, há orientações internas que sugerem o uso de linguagem inclusiva, o que inclui alternativas como "todes".
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A aceitação, porém, varia muito. Em Portugal, o uso é menos comum e encontra mais resistência. No Brasil, onde a questão de gênero é mais debatida publicamente, a palavra já aparece em dicionários online independentes e em Gramáticas de referência alternativas.
Problemas práticos e limitações
Existem situações em que o uso de "todes" simplesmente não funciona. A principal é em textos formais destinados a públicos conservadores ou a instituições que ainda não adotaram políticas de inclusão linguística. Neste caso, o termo pode gerar atrito desnecessário sem agregar valor comunicativo. Se você está escrevendo um currículo, uma carta formal ou um documento para um órgão público tradicional, o uso de "todes" pode ser interpretado como provisão ou desconhecimento das normas vigentes. Outro problema técnico: a língua portuguesa não possui, em sua norma padrão, um pronome neutro de terceira pessoa. "Todes" resolve parcialmente esse problema no plural, mas no singular a situação é mais complicada. Não há uma forma neutra consolidada para "ele/ela". Algumas propostas sugerem "eli", "ile" ou o uso de "a pessoa que", mas nenhuma delas ganhou tração significativa. Isso limita a aplicação prática da linguagem neutra a contextos específicos.
Uma experiência que tive pessoalmente: ao elaborar um material de divulgação para um projeto acadêmico, usei "todes" em um trecho que se destinava a estudantes de graduação. O material foi revisado por um coordenador que solicitou a substituição de "todes" por "todos e todas" ou simplesmente "todos", argumentando que a forma neutra poderia causar confusão. A solução que encontrei foi manter "todes" em uma nota de rodapé explicando o uso, o que foi aceito. Mas isso adiciona complexidade ao texto e pode dispersar o foco da mensagem principal.
Alternativas ao uso de "todes"
Se o objetivo é apenas evitar o masculino genérico sem adotar a forma neutra completa, existem alternativas mais conservadoras que ainda promovem inclusão:
- Dupla forma: "todos e todas" — clara, mas verbosa
- Retradução: reescrever a frase para evitar o pronome, usando "as pessoas", "o pessoal", "cada estudante"
- Uso de "xs": algumas comunidades usam "x" como marcador de neutro (ex: "todxs"), mas essa forma é ainda menos aceita institucionalmente do que "todes"
Cada alternativa tem seu custo. A dupla forma é mais longa. A retradução exige esforço criativo e nem sempre é possível sem alterar o sentido original. O uso de "xs" é funcional em contextos informais, mas pode ser considerado inaceitável em qualquer ambiente formal.
Conclusão sobre o uso atual
O termo "todes" é uma ferramenta linguística real, usada por falantes reais do português, com função comunicativa clara e reconhecida. Sua ausência dos dicionários tradicionais é um reflexo do tempo de adoção normativa, não da invalidade do uso. Para quem deseja adotá-lo, o recomendado é conhecer o contexto: em espaços acadêmicos progressistas, movimentos sociais e produções culturais, o uso é natural e esperado. Em contextos formais tradicionais, pode gerar fricção. A língua portuguesa está em constante evolução, e a questão da neutralidade de gênero é uma das frentes ativas dessa mudança. "Todes" existe na língua portuguesa como um marker dessa transformação, não como uma imposição arbitrária. Entender seu funcionamento, seus limites e suas implicações práticas é o que diferencia quem o usa de forma consciente de quem o adota de forma mecânica.