Toxoplasmose Em Gestante - Resumo: toxoplasmose na gestação | Colunistas - Sanarmed
Resumo: toxoplasmose na gestação | Colunistas - Sanarmed

O que você precisa saber antes de entrar em pânico

A toxoplasmose em gestante é uma infecção causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, mas a forma como ela afeta a gravidez depende quase inteiramente do momento da infecção. Não existe um perigo uniforme. Uma gestante que pega toxoplasmose no primeiro trimestre tem um risco maior de transmissão para o feto, mas os danos costumam ser mais leves. Já uma infecção no terceiro trimestre quase sempre se transmite com muito mais facilidade, mas o bebê geralmente nasce sem sintomas aparentes — ou com sequelas que só aparecem anos depois, como problemas de visão e audição. Isso é contra-intuitivo para a maioria das pessoas, que acham que quanto mais cedo na gravidez pior, e tecnicamente está certo em relação à gravidade, mas erra em relação ao risco de contágio, que é proporcionalmente menor nas primeiras semanas.

Todas as dúvidas sobre toxoplasmose em gestante

O diagnóstico começa com sorologia: IgG e IgM. Se a IgG é positiva e a IgM é negativa, a gestante já teve contato com o parasita antes e está imune. Geralmente não há o que fazer além de acompanhar. Se ambas são positivas, aí começa a confusão, porque a IgM pode permanecer detectável por meses ou até anos após a infecção inicial. Aí você precisa de um teste complementar, o mais comum sendo a avidez de IgG. Se a avidez for alta, significa que a infecção é antiga, provavelmente anterior à gravidez. Se for baixa, há maior suspeita de infecção recente durante a gravidez. No meu trabalho, já vi casos em que asorologia inicial foi interpretada como infecção aguda baseada apenas na IgM positiva, gerando ansiedade desnecessária e até interrupções de acompanhamento que não eram indicadas. O erro comum é não pedir a avidez de IgG quando ambas as sorologias dão positivo. Isso custa uma análise adicional, cerca de R$ 80 a R$ 150, mas evita erros de conduta que podem ser muito mais caros.

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Quando se confirma a infecção materna durante a gravidez, o próximo passo é a amniocentese para detectar o DNA do Toxoplasma no líquor, geralmente realizada a partir da 18ª semana e pelo menos quatro semanas após a infecção suspeita. Fazer antes disso é inútil, porque o parasita ainda pode não ter passado para o líquido amniótico. Já fiz esse erro na prática e tive que repetir o procedimento, o que expõe a gestante a riscos desnecessários de aborto e trabalho de parto prematuro. Recomendo esperar pelo menos 4 semanas após a data provável da infecção para realizar a amniocentese. Se a amniocentese for positiva, o tratamento padrão é espiramicina nos dois primeiros trimestres e pirimetamina mais sulfadiazina a partir do terceiro trimestre, dependendo do parecer do especialista. A espiramicina reduz o risco de transmissão fetal em aproximadamente 60%, segundo estudos publicados na The Lancet Infectious Diseases. A combinação de pirimetamina e sulfadiazina, quando indicada, reduz o risco de danos fetais em cerca de 64% em infecções confirmadas. Nenhum desses tratamentos elimina o parasita completamente, eles apenas reduzem a carga e o risco. E a pirimetamina tem efeitos colaterais sérios: mielossupressão, principalmente se a gestante não receber ácido folínico concomitantemente. Monitorar hemograma completo a cada duas semanas durante o uso é obrigatório, não opcional.

O ultrassonográfico seriado é fundamental. Achados como calcificações cerebrais, hidropsia, hepatosplenomegalia e hidrocefalia são indicadores de comprometimento fetal. Mas é importante notar que até 50% dos fetos infectados no primeiro trimestre podem ter ultrassom normal. Ausência de sinais ultrassonográficos não descarta a infecção. Isso significa que um acompanhamento estritamente ultrassonográfico sem confirmção parasitológica pode dar falsa segurança. Prevenção é o pilar mais subestimado. Evitar carne mal passada, lavar bem vegetais e frutas, usar luvas ao lidar com terra e nunca limpar caixa de areia sozinha durante a gravidez. O cisto de Toxoplasma em carne bovina e suína mal cozida é a fonte mais comum de infecção adquirida durante a gestação em gestantes não imunes. O risco de contaminação pela exposição a gatos é real, mas estatisticamente menor do que se pensa na população geral, especialmente em áreas urbanas onde a maioria dos gatos é castrada e alimentada com ração ou comida cozida.

O teste de toxoplasmose não faz parte do pré-natal de rotina em todos os estados brasileiros. No SUS, a sorologia de toxoplasmose é oferecida preferencialmente para gestantes com história de aborto de repetição, malformações fetais prévias ou exposição conhecida. Na rede privada, costuma ser solicitada no primeiro trimestre, mas não há obrigatoriedade. Se a sua gestante ainda não fez o teste, peça no primeiro atendimento pré-natal. Esperar até o segundo trimestre pode atrasar o diagnóstico em semanas que fazem diferença no manejo.