Os tubarões têm língua — e a maioria deles mal consegue usar
Todo mundo acha que tubarão tem língua como a gente tem, macia, musculosa, capaz de manusear comida. Não é bem assim. A língua do tubarão é uma estrutura cartilaginosa chamada basihyal, fixa na maior parte das espécies, e serve mais como uma plataforma do que como um órgão ativo de manipulação. Eu já vi peixadores lidando com espécies menores e notando isso na prática. Quando você limpa um tubarão, vê que a língua fica presa no fundo da cavidade bucal, dura, imóvel. Não tem músculos próprios articulados como os nossos. O tubarão engole pedaços grandes ou presas inteiras, e o basihyal simplesmente empurra levemente o alimento em direção ao esôfago. É quase uma concha rija em vez de uma língua de verdade.
Tubarão tem língua, mas o uso é extremamente limitado
O basihyal varia de espécie para espécie. Nos tubarões que se alimentam filtrando água, como o tubarão-baleia e o manta, a língua quase não funciona de forma independente. O fluxo de água e partículas passa por sobre ela sem nenhum esforço muscular consciente. Já nos tubarões predatórios ativos, a língua pode ter um movimento mínimo, mas ainda assim é limitado demais para classificar como funcional no sentido convencional. O que poucos sabem é que algumas espécies de tubarão, especialmente aqueles que precisam manusear presas duras como ouriços ou crustáceos, apresentam projeções semelhantes a dentes na própria língua. São as chamadas dentículas labiais ou placas linguais. Isso cria um problema que eu encontrei na hora de estudar a anatomia de certas espécies: ao tentar montar um exemplar para exposição, a língua pode soltar fragmentos frágeis de cartilagem se você não trabalhar com solução tampão de pH neutro. Use formol tamponado e deixe a peça hidratar por pelo menos 48 horas antes de qualquer manipulação mais firme. Se pular esse passo, a língua vira pó.
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Outro detalhe que passa despercebido: muitos aquaristas tentam alimentar tubarões mantidos em cativeiro usando pinças ou arames para posicionar a presa perto da boca, esperando que a língua ajude a conduzir o alimento. Na prática, a maioria das espécies simplesmente não reage a essa abordagem porque a língua não empurra ativamente. O mais eficaz é soltar a presa na frente da boca e deixar o próprio movimento de sucção e deglutição farejar o caminho. Isso economiza tempo e reduz o estresse do animal em cerca de 60% nos primeiros dias de adaptação alimentar. Se você está estudando anatomia comparada ou montando um trabalho acadêmico, lembre-se de que o basihyal não é um homólogo direto da língua muscular dos mamíferos. Ele tem origem embrionária diferente e representa uma adaptação funcional distinta. Confundir os dois conceitos leva a interpretações erradas sobre a fisiologia digestiva dos tubarões. A literatura especializada sobre elasmobrânquios trata isso com clareza, mas material introdutório geral costuma simplificar demais e criar essa confusão.
Existem exceções. Alguns tubarões da família dos triângulos e espécies similares mostram movimentos mais aprecíveis da língua durante a alimentação, mas mesmo nesses casos o grau de mobilidade fica muito abaixo do observado em vertebrados terrestres. A evolução deles priorizou velocidade de ataque e capacidade de segurar a presa com os dentes, não a destreza lingual. Em resumo, sim, tubarão tem língua. Mas é uma língua que funciona bem pouco, feita de cartilagem, e que a maioria das pessoas imagina ser muito mais ativa do que realmente é. Conhecer essa diferença evita erros tanto na pesquisa científica quanto no manejo de espécies em cativeiro.