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O que é a úlcera terminal de Kennedy e como lidar com ela na prática clínica

A úlcera terminal de Kennedy aparece na região distal de rebordos edêntulos em pacientes com prótese total, geralmente na porção posterior da base protética. Ela é causada por fatores mecânicos, mas também tem componentes biológicos que muitos clínicos ignoram. Ocorre quando o reborde ósseo está muito resorvido, a mucosa fica fina e a força oclusal ou de sucção da prótese gera trauma repetitivo naquele ponto específico.

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As causas principais são a perda óssea progressiva do rebordo, o ajuste inadequado da base protética nessa região e a pressão excessiva da parte posterior da placa. Quando o reborde está afilado, a prótese não tem suporte suficiente e oscila durante a fala ou a mastigação. Essa micromovimentação constante lesiona a mucosa submucosa. A vascularização daquela área é pobre, então a cicatrização demora. Fatores sistêmicos como diabetes descontrolado, uso de corticoides prolongados e tabagismo pioram tudo isso. O que eu vejo na minha prática é que a maioria dos clínicos trata apenas o sintoma. Eles fazem um ajuste superficial na prótese e mandam o paciente voltar em quinze dias. A úlcera volta porque a causa raiz não foi resolvida. A resistência tecidual naquela região distal é baixa demais para suportar a carga com uma base mal distribuída.

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Um detalhe importante que poucos consideram: a causa pode não ser apenas mecânica. Uma infecção fúngica sob a prótese total, especialmente Candida albicans, age em sinergia com o trauma protético e acelera a formação da úlcera. Muitos pacientes usam prótese 24 horas por dia, sem higienização adequada, e a mucosa posterior fica com aspecto esbranquiçado antes mesmo de surgir a lesão ulcerada. Isso muda completamente o manejo. Aqui vai uma situação que enfrentei recentemente: paciente masculina, setenta e dois anos, prótese total mandibular com mais de oito anos de uso. Apresentava úlcera terminal unilateral direita, dolorosa, com bordas avermelhadas e fundo amarelado. O ajuste protético feito por outro clínico havia piorado a lesão porque a base estava muito longa para o rebordo já quase reabsorvido. A solução que funcionou foi uma combinação de três etapas. Primeiro, interromper o uso da prótese por dez dias com curativo protetor de silicone termoplástico moldado no consultório. Segundo, tratar a colonização fúngica com nistatina tópica três vezes ao dia. Terceiro, remodelar a base protética encurtando o talão distal em quatro milímetros e adicionando material de alívio na região lesada. A lesão cicatrizou em duas semanas e não retornou após o reajuste protético.

O erro mais comum que eu vejo é o preenchimento agressivo da base com material de alívio permanente. Alguns clínicos colocam resina auto Policorrável ou silicone de alta espessura na região distal e acham que resolveram o problema. Isso modifica a estabilidade da prótese e a força passa a ser concentrada em outra área, gerando nova lesão em posição diferente. O alívio deve ser temporário e controlado, não uma solução definitiva para uma base mal adaptada. Outro ponto negligenciado é a relação entre a altura do reborde e a carga funcional. Rebordos com menos de cinco milímetros de altura em mandíbula têm risco significativamente maior de desenvolver úlcera terminal porque não há superfície de suporte adequada. Nesses casos, o uso de implantes para estabilizar a prótese total mandibular não é apenas uma opção de conforto. É uma necessidade clínica para redistribuir a força e eliminar o trauma distal recorrente. Sem implantes, o ciclo de lesão e reconstrução tecidual tende a se repetir indefinidamente.

A abordagem conservadora com ajustamento protético funciona em estágios iniciais, quando a lesão ainda não comprometeu a musculatura do assoalho bucal ou o trato superior da mucosa. Se a úlcera persiste por mais de três semanas apesar do ajuste protético adequado, o diagnóstico precisa ser revistas. Biópsia é indicada nesse cenário porque a persistência da lesão pode indicar outros processos patológicos, incluindo neoplasia, que podem ter aparência semelhante. O manejo correto envolve avaliar a extensão do rebordo, a qualidade da mucosa, a presença de infecção secundária e a dinâmica oclusal. Apenas ajustar a prótese sem esse panorama completo raramente resolve o problema de forma duradoura.