Uma Parlenda Folclórica - Parlendas Folclóricas | Atividades de folclore, Folclórica, Atividades ...
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O que é uma parlenda e por que ela persiste há tanto tempo

Parlenda é um texto de tradição oral, curto, com rima e ritmo marcados, feito para ser dito rápido, muitas vezes em jogos infantis ou brincadeiras de roda. Diferente da quadrinha, a parlenda não precisa ter estrofes fixas de quatro versos nem seguir métrica rígida. O que importa é a sonoridade, a repetição e a facilidade de memorização. A maioria tem entre dois e seis versos. Algumas são quase um verso só. Eu mexo com documentação de cultura popular e coletânea de brinquedos infantis há alguns anos. O problema prático que mais aparece é a variação regional. Uma parlenda que você ouve no Rio de Janeiro pode ter o final mudado completamente em Minas ou no Nordeste. Eu já perdi tempo tentando padronizar versões porque encontrei três textos diferentes para a mesma "parlenda do pato", por exemplo. A solução que funcionou foi tratar cada variação como registro separado, não como erro. Documentar as variantes é parte do trabalho, não algo a ser corrigido.

Como identificar e registrar uma parlenda folclórica

Aqui vai o passo a passo que eu uso na prática, sem muita teoria. Primeiro, anote o texto exatamente como foi dito. Não corrija a pronúncia, não ajuste a pontuação, não transforme fala em escrita culta. Se o falante disse "tava" em vez de "estava", escreva "tava". A versão que as pessoas realmente falam é o material que interessa.

Segundo, registre o contexto. Onde foi dita? Quem disse? Qual a idade aproximada? Em que situação? Brincadeira de esconde-esconde? Jogo de pega-pega? Roll-call de escolinha? O contexto muda tudo. Uma parlenda dite "pedra, papel, tesoura" tem função completamente diferente de uma que ditava quem começava uma corrida. Terceiro, grave áudio se conseguir. Texto transcrito perde entonação, pausa, velocidade. Parlenda é ritmo. Sem o áudio, você pierde informação que não está nas palavras.

Quarto, pesquise variantes. Entre no acervo do NEPIA da UFF, na base do Projeto Memória, no acervo do Museu da Língua Portuguesa. Compare. Anote o que muda e o que permanece igual.

Direitos autorais e uso de parlendas

Parlendas tradicionais estão no domínio público. São folclore, tradição oral, patrimônio imaterial. Você pode usar, transcrever, publicar, adaptar. O que não pode é passar uma versão que coletou de alguém como se fosse criação sua. A fala de uma criança de oito anos em Recife é dela, mesmo que a parlenda em si seja antiga. Dê crédito ao informante. Anote o nome. É básico, mas muita gente esquece. Se você está compilando um livro ou material didático, o mais seguro é listar os informantes com nome completo, cidade, data da coleta e fonte do áudio ou transcrição. Assim você cobre tanto a tradição quanto a performance específica que registrou.

Uma parlenda folclórica no Brasil: exemplos que todo mundo conhece e muitos não sabem nomear

A mais óbvia é "Sapo Cururu". Começa com o sapo descendo a rampa e termina com a cobra subindo. Tem variante com "sapourringa" no lugar de "sapo cururu". Já vi versões em que a cobra sobe de cabeça, outras em que ela sobe devagar. O essencial é a estrutura de movimento invertido: um desce, outro sobe. Isso é típico de parlendas de ditacao em jogos de criança. Outra é "Um, dois, feijão com arroz". Usada para contar e escolher alguém. Varia enormemente: "três, quatro, ferreiro com garfo", "cinco, seis, princesa Alex", e por aí vai. Cada região tem seu encadeamento numérico próprio. O que é fixo é a função: servir de critério aleatório para decidir quem começa, quem sai, quem fica.

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Tem também as parlendas de mão, como as que acompanham o jogo "pira ou pilá". Essas são praticamente inseparáveis do gesto. Sem a mão, a parlenda perde sentido. Eu já vi tentativas de usar essas parlendas apenas como texto escrito em material pedagógico e o resultado foi ruim porque o ritmo manual era essencial para a experiência original.

Erros comuns ao trabalhar com parlendas

O erro mais frequente é achacar que existe uma versão correta. Não existe. Parlenda é viva. Ela muda conforme passa de boca em boca, de geração em geração, de região em região. Tratar uma variante como errada é um erro metodológico grave. O segundo erro é separar parlenda de brinquedo. Muita gente pesquisa parlendas como texto literário isolado. Elas não são. São parte de um sistema de brincadeira. Retirar a parlenda do jogo é como tirar a música da dança. Ainda é música, mas perdeu a função que lhe dava vida.

O terceiro erro é usar fontes secundárias como se fossem primárias. Livros compilados nos anos 1960, antologias escolares, materiais didáticos. Tudo isso passou por filtragem. O que chegou até você já foi adaptado, censurado, suavizado. Se quer a versão real, vá à fonte original: gravações de campo, registros etnográficos, depoimentos diretos.

Fontes confiáveis para consultar

O NEPIA da UFF tem um dos acervos mais completos do país. A colecao de brinquedos e brincadeiras deles é aberta e bem organizada. O Projeto Memória da FUNDAJ também tem material relevante, especialmente para o Nordeste. A Biblioteca Nacional Digitalizada tem livros antigos de brincadeiras infantis que valem a pena, como as obras de Luís da Camara Cascudo, embora ele tenha seu viés de compilador que deve ser lido com atenção. Para versões auditivas, o acervo do Museo de la Palabra e o portal do Museu da Crianca do IBGE também possuem gravações úteis. Nada substitui o som.

Download e organização de material

Eu recomendo montar uma planilha simples com colunas para: texto da parlenda, variante, local de coleta, data, nome do informante, contexto do jogo, link para áudio (se existir) e observações. Use codificação UTF-8 desde o começo. Acentos errados em transcrições antigas viram pesadelo depois. Se for publicar online, use HTML semântico e text0 bruto. Formulários complexos e imagens de partituras não ajudam em nada numa parlenda. O texto é tudo. A pronúncia é o complemento.

Quando uma parlenda deixa de ser folclórica

Isso acontece quando ela é completamente reescrita com intenção commercial, perde o uso espontâneo nas ruas e passa a existir só em livros didáticos ou vídeos produzidos para ensino. A parlenda vira conteúdo, não prática social. Não significa que deva ser descartada — pode ser documentada como versão escolar — mas precisa ser classificada como tal. Não é a mesma coisa. Se você estiver coletando e perceber que uma parlenda que estava vivo há dez anos atrás hoje só existe em materiais didáticos, registre essa mudança também. O desaparecimento do uso espontâneo é um dado cultural importante por si só.

Parlenda não é poesia bonita. É mecanismo de jogo. É jeito de criança resolver quem começa, como de marcar ritmo, como de tornar uma brincadeira memorável. Entender isso evita muitos equívocos na hora de registrar, classificar ou ensinar.