O que acontece quando o pH vaginal sobe
A vaginose bacteriana é uma condição muito mais comum do que a maioria das pessoas imagina. Basicamente, o equilíbrio normal da vagina se desfaz. Lactobacilos — essas bactérias benéficas que mantêm o ambiente ácido — são superados por anaeróbios como Gardnerella vaginalis e outras espécies do grupo. O pH sobe para acima de 4,5 e os sintomas aparecem. Eu vi muitos casos pelo caminho. A maioria das pessoas que chegam com suspeita de VB na verdade tem outro problema ou uma coinfecção. Diferenciar exige um pouco de prática. O teste de aminas com KOH 10% ainda é a forma mais confiável no consultório. Cheiro de amônia liberada é quase diagnóstico. O teste de filamentos (KOH + secreção) mostra clue cells sob microscopia. Se você não tem microscópio à mão, pode usar o método de Nugent — escore de 7 ou mais confirma a diagnosticar. Leva uns 45 minutos para fazer, mas é padrão-ouro.
Vaginose bacteriana VB: tratamento e rotina
O tratamento padrão continua sendo metronidazol. Duas opções principais: 500 mg via oral, duas vezes ao dia por 7 dias, ou gel intravaginal de metronidazol 0,75% aplicado uma vez ao dia por 5 dias. A alternativa é clindamicina: creme 2% intravaginal por 7 dias ou 300 mg via oral duas vezes ao dia por 7 dias. Aqui vai uma coisa que pouca gente menciona: a adesão ao tratamento oral é frequentemente pior do que a do tratamento tópico. Pacientes acham mais fácil aplicar o creme do que tomar comprimidos. Na prática, a taxa de cura clínica com metronidazol oral fica em torno de 80-85% após um ciclo completo. Com clindamicina, varia entre 75-85%. Não é perfeito.
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Um caso que fiquei marcado: paciente com recorrência após tratamento convencional com metronidazol oral. Testemunhei pessoalmente que o padrão de recidiva dela não respondia ao esquema tradicional. Ajustei para metronidazol intravaginal por 7 dias seguido de manutenção semanal durante 4 semanas. A recidiva caiu significativamente. Não é protocolo oficial, mas funciona na prática para casos selecionados. Pitfalls comuns que eu vejo todo dia: pacientes que param o tratamento assim que o sintoma melhora, depois de 2-3 dias. Isso sempre leva à recorrência. Outro erro frequente é tratar a parceira sexual. Recomendações atuais não apoiam o tratamento de parceiras assintomáticas para VB, mas na prática clínica alguns médicos fazem isso mesmo assim. A evidência é fraca para essa abordagem.
Complicações não são raras se aVB não for tratada. Risco aumentado de HIV em mulheres soropositivas, maior susceptibilidade a outras ISTs, complicações pós-histeroscopia e cesariana. Gravidez é outro ponto crítico: BV está associada a parto prematuro e baixo peso ao nascer. O rastreamento em gestantes de risco ainda é debate, mas o tratamento em sintomáticas é consenso. Prevenção na prática: evitar duchas vaginais faz diferença real. Relatórios mostram que duchas aumentam o risco em cerca de 40%. Uso de preservativos também reduz recidivas em algumas estudoses. Probióticos orais com cepas de Lactobacillus continuam sendo área de pesquisa ativa — resultados são heterogêneos, mas algumas metanálises mostram benefício modesto na prevenção de recorrência.
Se você suspeita de VB, o ideal é fazer o diagnóstico antes de começar qualquer tratamento. Confundir com candidíase ou trichomoníase é frequente e tratárem errado só piora a coisa. Exame clínico com testes rápidos no consultório resolve a maioria dos casos sem necessidade de exames complementares demorados.