O conceito de território na psicologia comunitária latino-americana
Vera Maria Candau foi uma pesquisadora argentina radicada no Brasil que desenvolveu contribuições importantes para a psicologia comunitária, especialmente no que diz respeito à relação entre território, subjetividade e práticas psicossociais. Ela estudou na Universidade de Buenos Aires e trouxe essas reflexões para o contexto brasileiro através da sua atuação na UERJ e em programas de pós-graduação. O trabalho dela se articula com a psicologia social latino-americana e com a psicologia da libertação, mas tem um recorte próprio que vale a pena acompanhar com atenção.
Quem foi vera maria candau e qual é a relevância do seu trabalho hoje
Candau publicou textos sobre território como dispositivo de ação comunitária e sobre as tensões entre políticas públicas e organização popular. Um dos pontos centrais do pensamento dela é que o território não é apenas um espaço geográfico, mas uma construção social que envolve relações de poder, memória coletiva e possibilidades de intervenção. Isso pode parecer óbvio para quem já trabalha com comunidades, mas a forma como ela articula isso com a prática psicossocial é o que diferencia o debate. Ela também discutiu a ambiguidade do termo, já que diferentes correntes -- institucionalistas, crítica, emancipatórias -- se apropriam dele de maneiras distintas, às vezes contraditórias. O que eu vejo na prática é que muitos trabalhos aplicam o conceito de território de forma superficial, mencionando-o nos projetos sem realmente problematizar as relações de poder que o constituem. Já encontrei profissionais que tratavam o território como sinônimo de bairro ou sede física, o que inviabiliza qualquer análise mais densa. Uma vez, num projeto de intervenção comunitária no Rio de Janeiro, precisei mapear não apenas os pontos de referência espacial, mas também as redes de influência, os conflitos locais e as histórias que ligavam os residentes ao lugar. O que funcionou foi conversar com agentes comunitários de saúde, líderes religiosas e membros de associações de moradores, cruzando essas vozes com dados de serviços públicos. Achei que bastava usar mapas mentais, mas eles capturavam apenas a percepção individual. O mapa físico por si só não mostrava quem tinha acesso real aos recursos do território.
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Uma nuance que poucos consideram é a diferença entre território vivido e território planejado. O primeiro é o que as pessoas realmente habitam, com suas rutinas e tensões. O segundo é o que as instituições concebem e tentam impor por meio de políticas. Na maioria das intervenções que já acompanhei, os resultados saem mais perto do território planejado porque quem desenha os programas tem pouco contato com a dinâmica cotidiana. O risco disso é criar ações que parecem eficazes em relatórios mas não ressoam com a comunidade. Outro ponto importante: o conceito de território se aplica bem em contextos urbanos com redes organizadas, mas tem limitações sérias em áreas rurais isoladas ou em situações de deslocamento forçado, como refugiados e populações em rotas migratórias. Nessas condições, a noção de pertencimento territorial se desfaz rapidamente, e outras categorias -- como rede de acolhimento, trajetória de migração, vínculos transnacionais -- passam a ser mais úteis para estruturar a análise.
Se você quer aprofundar, os livros "Território, subjetividade e psicologia social" e artigos publicados na Revista de Psicologia Social da UERJ são o ponto de partida. Também vale consultar obras de Ana Lúcia Ribeiro de Moraes e de pesquisas que dialogam com a escola francesa de psicologia social, que teve influência na formação dela. Não recomendo começar por manuais genéricos de psicologia comunitária, pois eles costumam tratar o território como adereço e não como eixo analítico. O conceito ajuda a estruturar diagnósticos participativos e projetos de intervenção, mas não é uma ferramenta de consulta rápida. Leva tempo para mapear um território de forma séria, e os resultados nunca são totalmente conclusivos porque as relações de poder se modificam constantemente. Em cenários de urgência, onde o tempo de resposta é curto, muitas vezes é mais eficaz trabalhar com unidades menores, como ruas ou blocos, em vez de tentar abranger toda uma área territorial de uma vez.