O que é Yes or No Film
Yes or No Film é basicamente uma abordagem de roteiro e direção onde cada cena, decisão de enredo ou escolha de personagem passa por um filtro binário: isso funciona ou não funciona. Não é nenhuma técnica revolucionária em si. Muitos roteiristas e diretores usam algo parecido sem dar nome. A diferença é que o Yes or No Film sistematiza isso de forma explícita. O conceito se aplica especialmente a filmes com orçamento baixo, conteúdo gerado rapidamente e produções que precisam tomar decisões práticas no set. Você pergunta "essas duas personagens precisam estar na mesma cena?" Se a resposta for não, você corta. Simples assim na teoria, mas na prática existem nuances que todo mundo que já tentou aplicar esquece.
Como aplicar o método yes or no film na prática
Vou explicar do jeito que eu uso, que é diferente da maioria dos tutoriais que você encontra. A maioria das pessoas começa pelo roteiro. Eu começo pelo problema que mais quebra a produção: cenas que existem porque sim. Quando eu estava montando um curta-metragem com quatro locações e dois dias de gravação, eu tinha uma cena inteira de aproximação emocional entre dois personagens que acontecia num carro estacionado. O roteiro pedia três minutos de diálogo sobre sentimentos. Minha equipe não tinha tempo de montar aquele cenário, muito menos iluminar um carro da forma certa. Apliquei o yes or no nessa cena específica. A resposta foi não. Não porque a cena fosse ruim, mas porque o orçamento de tempo e espaço não comportava.
O workaround que funcionou foi mover o mesmo diálogo para dentro de uma cozinha comum, algo que já tava na lista de locações. Troquei a dinâmica visual, mantive o conteúdo dramático. O resultado final ficou melhor, na verdade. O close de uma pessoa coçando a mão enquanto fala algo importante tem mais peso do que dois rostos iluminados artificialmente num parabrisa. Aqui vai o passo a passo que eu sigo:
Filtra todas as cenas do seu roteiro com uma única pergunta: esta cena avança algo que o filme não avançaria de outra forma? Se a resposta for não, a cena sai. Sem dó. Não existe essa de "a cena é bonita cinematicamente mas não avança nada." Cinematografia bonita é secondary em relação à função da cena. Pelo menos nesse método. Depois disso, olha para cada personagem. A regra é simples: se você remover esse personagem e o resto da história ainda funciona, ele não deveria estar no filme. Eu já vi gente chorar comigo quando corta um personagem assim. Mas é real. A maioria dos roteiros tem personagens de enchimento que ninguém percebia que estavam lá até sumirem.
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Para diálogos, eu aplico uma variação. Cada linha de diálogo passa pela pergunta: alguém já disse isso em outra cena? Se sim, essa linha sai. Repetição dentro do próprio filme é erro de amador, não estilo.
Downsides que ninguém fala
O método yes or no film tem um problema séria que eu encontrei: ele tende a matar cenas que são atmosféricas mas não funcionais. Filmes que dependem de tom, textura e presença visual sofrem com essa abordagem. Se o seu filme é mais sobre sensação do que sobre estrutura de enredo, esse método vai deixar o produto final mais frio e mecânico do que o necessário. A alternativa que eu uso nesses casos é o chamado "yes, but also no". Ao invés de uma pergunta binária, você pergunta: essa cena precisa existir? Se sim, ela está fazendo o máximo que pode fazer? Às vezes uma cena atmosférica precisa existir e você não deve cortá-la só porque ela não move a trama. A chave é saber a diferença entre uma cena que poderia estar em qualquer outro filme e uma cena que só funciona no seu filme.
O outro problema é que esse método funciona melhor para ficção narrativa tradicional. Documentários, filmes experimentais e produções que dependem de improvisação no set não se beneficiam tanto. Na verdade, podem piorar. A estrutura binária elimina a possibilidade de descoberta orgânica durante a filmagem. Se o seu filme tem cenas planejadas especificamente para deixar os atores interagirem e criarem algo espontâneo, aplicar o yes or no rigorosamente antes da gravação vai eliminar exatamente o momento em que a mágica acontece. Nesse caso, eu recomendo aplicar o filtro só depois da filmagem, durante a edição. É mais trabalhoso, mas preserva a intenção original.
O yes or no film não é bala de prata. Ele é uma ferramenta de corte, não de criação. Use quando precisar decidir o que cortar, não quando precisar decidir o que colocar. A diferença é importante e a maioria dos roteiristas principiantes inverte essa lógica na primeira vez que tentam.