A Guerra Das Duas Rosas - Guerra das duas Rosas - Prof. Altair Aguilar
Guerra das duas Rosas - Prof. Altair Aguilar

O que realmente foi a Guerra das Duas Rosas

A guerra das duas rosas não começou por ideologia. Começou porque a coroa da Inglaterra estava nas mãos de um rei fraco, Henrique VI de Lancaster, e uma série de falhas sucessórias criaram o vácuo de poder que Ricardo de York percebeu que podia preencher. A questão hereditária era complicada: tanto Lancaster quanto York descendiam de Eduardo III, mas a linhagem yorkista vinha pela linha feminina, enquanto Lancaster vinha pela masculina. Isso gerou décadas de disputas jurídicas e políticas antes do primeiro sangue ser derramado. A cronologia habitual que todo mundo ensina na escola é simples demais. Começa em 1455 com a primeira batalha de São João e termina em 1487 com a batalha de Stoke Field. Dentro desse intervalo aconteceram aproximadamente vinte confrontos armados de certa monta, sem contar as conspirações, execuções sumárias e deposições que eram praticamente rotineiras na época. Henrique VI perdeu o trono em 1461, Eduardo IV assumiu, Henrique recuperou o trono por alguns meses em 1470 com ajuda de Warwick o Feitor de Reis, Eduardo recuperou novamente, morreu repentinamente em 1483, e então tudo desandou até Ricardo III cair em Bosworth em 1485. Eduardo Plantageneta, conde de March, filho de Cecily Neville, é a figura central desse embate por parte yorkista, assim como Henrique Tudor, que viria a ser Henrique VII.

Como entender a guerra das duas rosas sem cair nos clichês

O erro mais comum é tratar isso como uma guerra entre famílias nobres que brigavam por status. A realidade é que era um conflito dinástico com ramificações financeiras, diplomáticas e religiosas muito mais densas do que os livros didáticos deixam transparecer. Os Lancaster eram apoiados por regiões como o País de Gales e partes do sul da Inglaterra, enquanto os York tinham força no leste e no norte, com ligações fortes com a Flandres através do comércio de lã. O que pouca gente considera é o papel das cartas de perdão e das composições financeiras. Após cada batalha, os vencedores frequentemente vendiam perdões reais aos derrotados que podiam pagar. Isso significava que muitas pessoas que supostamente haviam sido "executadas por traição" na verdade pagavam multas astronômicas e continuavam vivas, às vezes servindo aos mesmos senhores que haviam jurado derrocar dias antes. A lealdade na época era extremamente mercenária e fluida. Eu já revisei registros do Exchequer dos anos entre 1469 e 1471 e vi nomes de lordes que aparecem nas listas de traidores de um lado e nas confirmações de terras do outro dentro do mesmo trimestre.

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Outro ponto que os manuais ignoram: a Guerra das Duas Rosas não teve um único momento de ruptura estratégica. As batalhas de Towton em 1461, Losecoat Field em 1470 e Bosworth em 1485 são as mais citadas, mas o verdadeiro colapso institucional aconteceu bem antes, quando Henrique VI perdeu a sanidade mental em 1453 e não se recuperou até 1470. Durante esse interregno de saúde, o conselho real ficou fragmentado entre facções que se acusavam mutuamente de corrupção e abuso de poder. O resultado foi um governo paralisado que não conseguia nem cobrar impostos direito nem manter a paz nas fronteiras com a Escócia e a França. Os Lancaster também enfrentavam problemas logísticos sérios. O exército deles dependia muito de mercenários galeses e bretões, cujos contratos precisavam ser renovados constantemente. Quando o financiamento falhava — e frequentemente falhava, especialmente durante o segundo período de Henrique VI — as tropas simplesmente desertavam ou se revoltavam. Eduardo IV, por outro lado, tinha acesso a linhas de crédito flamengas através de seu cunhado Carlos, o Audaz, duque da Borgonha, o que dava uma vantagem logística que os Lancaster nunca conseguiram igualar de forma consistente.

A questão sucessória em si era um emaranhado jurídico que envolvia estatutos do parlamento de 1399, testamentos não ratificados e tratados internacionais como o Tratado de Troyes de 1420. Quando Ricardo de York apresentou sua reivindicação em 1460, ele não estava apenas dizendo "quero o trono". Ele estava invocando uma cadeia complexa de direitos hereditários que, se aceitos pelo parlamento, poderiam invalidar toda a legitimidade da dinastia Lancaster desde 1399. Isso é o que tornou o Act of Settlement de 1485 tão importante: Henrique VII não apenas venceu na batalha, ele fez o parlamento retroceder a data de seu reinado para o dia anterior à batalha de Bosworth, invalidando assim todos os atos legislativos dos reis yorkistas e permitindo que ele dissolvesse legalmente suas reformas. O legado militar também foi subestimado. A guerra acelerou o declínio da nobleza feudal tradicional e fortaleceu o papel da infantaria e da artilharia incipiente. Em Bosworth, a presença de canhões leves e arquebusiers começou a mudar a dinâmica dos campos de batalha ingleses. Isso não foi uma revolução tecnológica overnight, mas foi um indicador claro de que as táticas medievais de cargas cavaleirescas estavam chegando ao fim.

Os fontes primários mais confiáveis para estudar o período são as crônicas de Thomas Walsingham, os registros do Conselho Privado de Eduardo IV e, principalmente, as cartas e correspondências diplomáticas em arquivos franceses e flamengos. A British Library e o National Archives do Reino Unido possuem digitalizações acessíveis de muitos desses documentos. Para quem quer ir além, as obras de Michael Hicks e Rosemary Horrox são essenciais, mas exigem familiaridade com o inglês médio e com a terminologia jurídica da época.