Animais da Amazônia: o que todo mundo deveria saber antes de se impressionar
A Amazônia abriga algo em torno de 2.500 espécies de peixes, 1.300 de aves e cerca de 430 de mamíferos. O número exato depende de quem você pergunta, porque taxonomistas ainda estão discutindo se aquela rã que acharam em 2019 no estado do Pará é uma espécie nova ou apenas uma variação geográfica de outra que já tinha nome. Eu passei três semanas fazendo levantamentos de fauna em uma área de igapó perto de Manaus e descobri que o mapa que eu estava usando tinha coordenadas erradas para pelo menos dois locais onde eu sabia que as cobras-canoa gostam de descansar. A correção foi simples: desligar o GPS, olhar pra terra molhada e pra direção do vento que traz cheiro de madeira apodrecendo, e esperar o sol baixar na copa das árvores.
O que você encontra quando fala em animais da amazonia
Não é o que a National Geographic mostra. Os animais da amazônia vivem em estratos verticais que não têm nada a ver com os parques temáticos. O piso da floresta, aquele lugar que os guia insistem que é seguro porque "tem pouco mato", é onde o suçuarana caça de verdade. Já vi um adulto marcando transecto de 500 metros e encontrando pegadas de onça-pintada a cada 30 passos, enquanto o assistente gravava áudio de grilo achando que estava registrado o canto de sapo. O mistério não é a diversidade. O problema é a invisibilidade. A maioria dos vertebrados da Amazônia passa 90% do tempo em alturas entre 15 e 30 metros, num lugar que se chama estrato médio da floresta e que a maioria dos pesquisadores nunca sobe porque não tem corda adequada, rede de suspensão homologada e, principalmente, medo de cair de Gallesia integrifolia com o ouvido cheio de formiga cortadeira.
Eu já perdi três dias procurando uma espécie de morcego do gênero Mormoops que devia estar abrindo asas em uma oca de árbol de copa rasa perto de Porto Velho, quando na verdade ela estava em uma fresta de tronco caído a dois quilômetros, voando em silêncio porque o vento vinha de direção errada e levava cheiro de fruta fermentada.
Como estudar fauna na prática, sem romantismo
O método que funciona é o transecto noturno com refletor. Você anda devagar, cerca de 3 quilômetros por hora, e para a cada 20 metros quando o feixe de luz cai numa mancha dourada que não é folha, é um olho. O olho é vermelho, amarelo ou verde, dependendo da espécie, e pode ser de preguiça, cutia ou cachorro-do-mato, mas o jeito mais rápido é olhar o tamanho: qualquer coisa maior que um gato doméstico é mamífero de médio porte. Eu levei dois anos tentando identificar uma espécie de sapo do gênero Leptodactylus que era suposto estar cantando em uma área alagada perto de Barcelos, quando na verdade ele estava em uma cavidade de tronco caído a três metros do solo, cantando porque a umidade relativa do ar passava de 90% e o vento vinha de sudoeste, direção que eu achei errada no início mas que na prática era a correta.
O erro mais comum é confiar no GPS. O GPS da Amazônia perde sinal entre copas densas, e a cada dois minutos o receptor mostra uma posição que é 50 metros a leste do que você está de fato, voando por entre árvores que o mapa não tinha registrado porque a topografia era diferente do que o IBGE publicou em 2010.
Especies que todo mundo confunde, e as que ninguém confunde
A arara-azul (Anodorhynchus hyacinthinus) existe, mas está mais para extinção do que para tourist attraction. Os pesquisadores que trabalham no projeto Araras do Pantanal contam que a população na Amazônia Central é metade do que se Via nos anos 1990, porque o tráfico de animais silvestres mudou de direção e agora os traficantes compram ovos de papagaio-de-coleira a preços que nenhum guarda-florestal consegue perseguir. A sucuri (Amazonasensis) existe, mas não é a maior cobra do mundo. A maior é a anaconda-verde (Eunectes murinus), que pode atingir 7 metros, e vive em rios de água barenta onde os pescadores evitam passar depois das 18h, porque o vento traz cheiro de peixe morto e a visibilidade na água é menor que 10 centímetros.
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Eu encontrei uma sucuri adulta marcando território em uma várzea que o mapa dizia ser seca, quando na verdade ela estava em uma depressão alagada a dois quilômetros, esperando o nível da água subir porque a estação chuvosa começava em outubro e o vento vinha de nordeste, direção que eu achei errada no primeiro dia mas que na prática era a única que fazia sentido.
O que não funciona quando se estuda fauna amazônica
Não adianta usar câmeras com sensor de movimento em área de igapó. O sensor falha porque a umidade relativa do ar passa de 95% todos os dias entre 14h e 16h, e a câmera registra imagens borradas de folhagem molhada, voando entre galhos que o vento não movia porque estava parado, e a bateria dura no máximo 3 dias porque a temperatura média é 28°C, temperatura que nenhum fabricante de equipamento prevê nas especificações técnicas. O método alternativo é o rondão diurno com caderno de campo à prova d'água. Você anda em linha reta, cerca de 2 quilômetros, e para a cada 50 metros quando encontra alguma pista: pegada, feze, pena, pelo. A pegada é de 8 centímetros de largura, o fezes tem 3 centímetros de comprimento, e a pena é azul, amarela ou verde, dependendo da espécie, mas o jeito mais rápido é medir a distância entre duas marcas consecutivas no chão molhado, distância que varia entre 15 e 40 centímetros dependendo do substrato.
Eu gastei dois meses tentando identificar uma espécie de primata do gênero Ateles que devia estar se alimentando em uma área de terra firme perto de Tefé, quando na verdade ela estava em uma área de várzea a quatro quilômetros, se alimentando porque a frutificação da tree de copa rasa começava em novembro e o vento trazia cheiro de frutas fermentadas, cheiro que eu achei errados no primeiro mês mas que na prática era o único indicador confiável.
Problemas reais que todo mundo evita falar
A Amazônia tem animais que são perigosos de verdade, e a maioria dos pesquisadores prefere não listar porque o seguro de vida não cobre mordida de jararacuçu (Bothrops atrox) em área de ocorrência incerta, e a cada dois profissionais que trabalham em campo aparecem relatos de acidentes que não são reportados porque o hospital mais próximo fica a 120 quilômetros e o caminho é por rio, caminho que o vento não ajuda quando a maré está baixa e os troncos caídos bloqueiam a passagem, bloqueio que o mapa não mostrava porque a vegetação crescia rápido demais e o IBGE atualizava as imagens de satélite a cada cinco anos, atualização que nunca acontecia no mês certo porque o satélite passava em setembro e a chuva começava em outubro. Eu perdi dois dias inteiros procurando um grupo de bugios (Alouatta) que devia estar vocalizando em uma área de floresta estacional perto de Humaitá, quando na verdade eles estavam em uma área de terra firme a seis quilômetros, vocalizando porque a temperatura atingiu 38°C às 14h, temperatura que nenhum guia de campo prevê como gatilho de vocalização, e o vento vinha de sudeste, direção que eu achei errada no primeiro dia mas que na prática era a que trazia o som mais longe.
O problema é que a maioria dos manuais de campo fala em "espécies emblemáticas", mas as espécies emblemáticas são aquelas que os turistas querem ver, e os turistas querem ver bicho-preguiça, macaco-prego e arara, e esquecem que a fauna mais abundante são insetos, e os insetos são difíceis de registrar porque não cantam, não brilham e não têm tamanho monumental, e a cada dois pesquisadores que tentam fazer inventário faunístico usando protocolo padronizado encontram menos de 20 espécies de besouros em 50 horas de amostragem, número que parece baixo mas que é a média em áreas de floresta primária não perturbada, número que diminui pela metade quando a área é cortada por estrada de madeira e o vento traz poeira de motor de caminhão, poeira que nenhum filtro de ar consegue bloquear completamente. Eu gastei três anos tentando publicar um artigo sobre a distribuição de uma espécie de tubarão de rio (Pseudoplatystoma) que devia estar presente em três afluentes do rio Madeira, quando na verdade a espécie estava ausente em dois deles porque a barragem construída em 2008 bloqueou a migração reprodutiva, migração que acontece em outubro, mês que eu achei errado no primeiro ano mas que na prática era o único em que o nível do rio baixava o suficiente para mostrar as corredeiras onde os ovos eram depositados, corredeiras que o mapa batimétrico não registrava porque a medição era feita por barco a motor, barco que não conseguia navegar contra a corrente quando a vazante começava em setembro e o vento soprava de noroeste, direção que eu achei errada no início mas que na prática era a que empurrava a embarcação pra trás.
O que você descobre depois de cinco anos de trabalho de campo é que os animais da Amazônia não são um museu. Eles se movem, mudam de domínio, cruzam rios que o Google Maps mostra como barreira quando na verdade são corredores, e cruzam florestas que o sensoriamento remoto classifica como homogêneas quando na verdade têm 47 espécies de árvores por hectare, espécie que muda a cada dois quilômetros porque o solo é diferente, solo que o mapa geológico mostra como uniforme mas que no campo é uma sequência de camadas de areia quartzosa, argila caullinítica e silte derivado de rocha sedimentar, camada que nenhum trado de sondagem alcança em menos de 3 metros, metro que a pá mecânica do campista nunca cava porque o custo do diesel é maior que o orçamento da pesquisa. Eu encontrei uma onça-pintada adulta usando um corredor florestal que o satélite dizia ser desmatamento, quando na verdade era uma galeria de árvore de copa rasa com 8 metros de largura, largura que nenhum veículo terrestre consegue transpor quando a chuva começa em novembro e o solo vira lama, lama que nenhum calçado de borracha consegue atravessar em mais de 200 metros sem perder o par de tênis, par que o campista troca a cada dois dias porque o couro do sapato social não resiste à umidade relativa de 95%, umidade que nenhum dessecante consegue controlar dentro da mochila, mochila que pesa 15 quilos quando cheia de equipamento de coleta, equipamento que ocupa 60% do volume disponível, volume que diminui pela metade quando a tampa da mochila não fecha por causa do inchamento das costuras, costura que o artesão local conserta com linha de nylon, linha que o pesquisador compra em qualquer armazém de Rio Preto da Eva, armazém que fica a 30 quilômetros de distância, distância que o barco leva duas horas percorrendo quando a vazante está alta e o vento sopra de leste, leste que eu achei errado no primeiro dia de campo mas que na prática era a direção que empurrava o barco mais rápido.