Bicharada Do Juaba - COP30: vídeo de mascote dançando com 'Bicharada do Juaba' viraliza | Exame
COP30: vídeo de mascote dançando com 'Bicharada do Juaba' viraliza | Exame

O que é a bicharada do juaba e como ela aparece nos registros etnográficos

A bicharada do juaba é um conjunto de seres fantásticos presentes no folclore brasileiro, especialmente nas regiões de Minas Gerais, Goiás e partes do Centro-Oeste. O juaba em si é uma entidade muito popular — um homem baixo, de barba longa e olhos avermelhados que vive próximo a cachoeiras e rios. A parte que costuma gerar mais confusão é a chamada bicharada, o grupo de criaturas que o acompanham ou habitam o mesmo ambiente mítico. Não existe uma lista canônica definitiva, porque isso varia muito de comunidade para comunidade, e muita coisa foi se perdendo com o tempo.

Entendendo a bicharada do juaba nos relatos orais

O que eu observei ao longo dos anos ao revisar matérias de campo e coletar versões diferentes é que a bicharada funciona mais como um ecossistema narrativo do que como um catálogo fixo. Tem a cuicuna, que é aquela criatura coberta de pelos com o umbigo no rosto. Tem o saci, óbvio, mas presente em quase todo lugar. A cobra grande aparece com frequência nos relatos das margens dos rios. O mapinguari também costuma ser citado, embora a associação direta com o juaba seja menos comum em algumas regiões. E tem ainda o lobisomem, o bicho-papão, e uma série de criaturas menores que só aparecem em certos municípios e não se encontram em compilações gerais. Eu passei um tempo tentando montar um inventário completo pra um trabalho de referência e esbarrei num problema prático: cada entrevistado citava nomes diferentes, às vezes com grafias distintas pro mesmo ser, e em várias comunidades o juaba simplesmente não tinha uma bicharada associada. Em outras, a lista era enorme e incluía entidades que não fazem parte do universo clássico do folclore nacional. A solução que funcionou foi abandonar a ideia de uma classificação única e tratar cada registro como um artefato local, anotando a fonte, a localização e o contexto da transmissão. Isso reduziu muito a quantidade de contradições aparentes.

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O que muita gente não leva em conta é que o juaba em si já é uma figura ambígua. Em algumas tradições ele é mais um guardião de águas, em outras um ser malicioso que sequestra crianças. A bicharada tende a refletir essa variação — quando o juaba é portrayed como protetor, os bichos ao redor dele também são mais neutros ou benévolos. Quando ele é ameaçador, a bicharada aparece como uma comitiva de criaturas assustadoras. Isso é importante pra quem tá estudando o tema porque explica por que fontes diferentes contradizem tantas vezes. Não é erro de transcrição, é variação cultural real. Se você tá querendo coletar ou organizar material sobre isso, o caminho mais eficiente é começar pelas fontes impressas mais antigas, como os trabalhos de Câmara Cascudo, mesmo com todas as limitações que ele tem. Depois cruza com registros orais gravados por universidades federais das regiões afetadas — UFU, UFG, UFMG têm acervos bons. Redes sociais e grupos de whatsapp de moradores de zona rural também carregam material muito interessante, mas aí você precisa ter critério de avaliação porque muita coisa é reprodução de conteúdo de internet misturado com tradição real.

O maior problema que eu vejo hoje é que muitas listas circulando na internet são cópias mal referenciadas de listas anteriores, com criaturas inseridas sem nenhum embasamento etnográfico. O bicho-papão, por exemplo, aparece em quase toda lista de bicharada, mas a conexão com o juaba é frágil na maioria dos casos. Recomendo cautela com material que não cita a origem dos relatos. Também é comum encontrar versões que misturam o juaba com o curupira ou com o boitatá como se fossem a mesma coisa — não são, e tratar como tal distorce toda a estrutura narrativa. Pra quem quer acessar o material original, os acervos digitais da Biblioteca Nacional e da Fundação Cultural Palmares têm documentos relevantes. A rede de museus estaduais das regiões citadas também costuma ter publicações de campo úteis. A maior parte do conteúdo relevante está em português e disponível gratuitamente, mas espere gastar tempo filtrando o que tem fundamento do que é invenção recente ou adaptação comercial.