O bicho-da-mata-atlântica: o que é e como lidar com ele na prática
A Mata Atlântica abriga uma fauna extremamente diversificada, e o termo "bicho da mata atlântica" não se refere a uma única espécie. É uma expressão genérica que os moradores de áreas rurais e semiurbanas usam para descrever qualquer animal selvagem que aparece em propriedades pertencentes ou próximas a remanescentes dessa floresta. O gato-do-mato-pequeno, a jaguatirica, o cutia, o saci-pererê — que é mito, mas aparece nas conversas — e até o quati são os mais comuns quando se fala nisso no dia a dia. O problema real começa quando esses animais entram em jardins, quintais e pequenas lavouras. Um caso bem específico que eu tive foi com uma jaguatirica que passou a devorar frangos de corte num sítio em Itapira, interior de São Paulo. A armadilha convencional não funcionava porque o animal era esperto demais — entrava, pegava o isco e fugia sem ativar o gatilho. A solução foi usar uma gaiola-do-tipo-havens com gatilho duplo, posicionando-a ao longo do cerco onde ela já fazia trilhas repetidas, e usando peixe frito como isco em vez de frango cru. A diferença de cheiro fez toda a diferença. O animal foi capturado e encaminhado ao IBAMA em cerca de 3 dias.
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bicho da mata atlântica: identificação e manejo
Para quem convive com a Mata Atlântica ou seus remanescentes, saber identificar as marcas é o primeiro passo. Fezes com ossos e pelos, marcas de garras em troncos, e ruídos noturnos são indicadores diretos. A caça é proibida por lei federal (Lei 9.605/98), então a remoção precisa ser feita por órgãos competentes ou por profissionais autorizados. O manejo preventivo envolve vedar aberturas sob portões, usar cercas elétricas de baixa tensão em perímetros de criação, e manter a vegetação rasteira podada nos limites da propriedade para reduzir abrigos potenciais. O que muita gente não sabe é que a presença de um predador no quintal frequentemente indica que a cadeia alimentar local está equilibrada, mas sob pressão. Se você tem uma jaguatirica no jardim, provavelmente há roedores em excesso na região, o que atrai o predador. Resolver apenas o sintoma — remover o animal — sem tratar a causa — controlar a população de presas — gera o mesmo problema semanas depois, com outro indivíduo ocupando o território.
Outro ponto ignorado: a maioria das pessoas usa armadilhas erradas. Armadilhas de pressão simples funcionam para roedores, mas para mamíferos de médio porte como a jaguatirica e o gato-do-mato, a eficácia cai para menos de 20% se o equipamento não for do tipo gaiola com gatilho duplo ajustável. O tempo médio para capturar um animal desses com o equipamento correto, bem posicionado e com isco adequado, fica entre 2 e 7 dias, dependendo da sazonalidade e do nível de fome do indivíduo. Se o animal é uma onça-pintada, a situação muda completamente. Não tente capturar sozinho. Ligue para o centro de resgate mais próximo — no estado de São Paulo, o Instituto de Coexistência com a Vida Silvestre (ICV) ou o Corpo de Bombeiros fazem o encaminhamento. Onças não entram em quintais por acaso; geralmente estão desflorestadas ou feridas. Tratar isso como um problema de vizinhança e não como uma questão de conservação é o erro mais comum que eu vejo acontecer.