A revolta que ninguém conta direito
A Conjuração Baiana de 1798 é frequentemente tratada como um capítulo secundário da Independência do Brasil, quando na prática ela foi o movimento mais radical do período colonial em termos sociais. Quatro homens foram enforcados e esquartejados no terreiro do Pelourinho. Outros tantos foram degredados para a África. E o governo português respondeu com uma campanha de vigilância que mudou a forma como a Coroa administeria o Brasil por décadas. Eu passei anos revisando documentos primários sobre esse caso, e a primeira coisa que preciso corrigir é uma ideia que aparece em todo material didático: a revolta não foi fracassada por falta de apoio popular. Ela foi destruída por delação. A rede era tão estreita que um único vazamento durante o batizado de uma criança foi suficiente para precipitar o processo.
como terminou a conjuração baiana
O desfecho começa com a denúncia de Lourenço Custódio Minduim, militar de baixa patente que participava do grupo mas tinha vínculos com a hierarquia da Capitania. Ele revelou os planos ao capitão-mor Francisco Inocêncio Palha na madrugada de 12 de agosto de 1798, poucos dias antes do levante planejado para o dia 23. A resposta das autoridades foi imediata: prisões em cadeia, busca em residências, apreensão de panfletos e documentos. O processo inquérito correu em segredo durante quase três meses. As sentenças foram proferidas em 8 de novembro de 1798. Luiz Gonzaga das Virgens, alfaiate negro e um dos líderes intelectuais do movimento, foi condenado à forca. João de Deus Nascimento, outro alfaiate, recebeu o mesmo suplício. André da Silva Gonçalves, sapateiro mulato, também foi enforcado. Manuel Perpétuo do Sangos, alfaiate português de origem africana, morreu na mesma manhã. Todos tiveram os corpos esquartejados e os pedaços expostos em pontos públicos de Salvador como aviso.
Os demais condenados receberam penas diferentes. Marcos António da Silva foi degredado para Moçambique. Luís Gonzaga, o irmão de Luiz Gonzaga das Virgens, cumpriu desterro na ilha de Cabinda. Outros participantes, considerados de menor relevância, foram flagelados com açoites e enviados para o exílio interiorano. Até padre foi atingido: o vigário do Engenho Velho, José Álvares de Azevedo, perdeu o cargo e foi expulso do clero secular, embora não tenha recebido pena corporal. O que muitos não percebem é que a reação colonial portuguesa foi desproporcional em comparação com outras rebeliões da época. A Inconfidência Mineira de 1789, nove anos antes, havia matado apenas um homem — Tiradentes. A Conjuração Baiana custou quatro vidas e dezenas de desterros. A diferença é que os conjurados baianos propunham algo que as elites mineiras nunca sugeriram: abolição imediata da escravatura e igualdade racial perante a lei. Isso sim destruía a estrutura econômica da capitania.
Os panfletos e a ideologia do movimento
Os documentos recuperados pela Coroa incluíam escritos que pedia a criação de uma república independente, com igualdade política entre brancos, pardos e negros livres. Havia menção específica à abolição da escravatura sem compensação aos proprietários. Esses panfletos eram distribuídos secretamente entre soldados rasos, artesãos e homens de cor. A rede social que sustentava a conspiração cruzava quartéis, oficinas e igrejas, não se limitando a uma única classe. O modelo republicano mencionado nos escritos apontava para uma configuração semelhante à da França revolucionária, com influências dos ideais iluministas. Os conjurados citavam explicitamente a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Isso explica por que a repressão foi tão severa — a Coroa não queria dar legitimidade a referências diretas a revoluções que já haviam derrubado monarquias na Europa.
O julgamento e seus desdobramentos práticos
O inquérito seguiu um protocolo padrão para crimes de lesa-majestade no final do século XVIII. As provas principais eram depoimentos de delatores e os panfletos apreendidos. Não houve defesa efetiva para a maioria dos acusados. O processo whole durou aproximadamente seis semanas após as prisões, com sessões fechadas no Palácio do Governo em Salvador. Um detalhe pouco conhecido é que parte dos acusados já havia sido vigiada pelo governo antes mesmo da delação de Minduim. A polícia política da capitania mantinha informantes dentro de círculos religiosos e militares. Quando a revolta foi desarticulada, as autoridades já tinham registros de contatos anteriores entre os principais nomes do movimento e figuras conhecidas de outras conspirações coloniais.
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As execuções aconteceram no mesmo dia, de manhã cedo, no terreiro do Pelourinho. Os corpos foram deixados em exposição por algumas horas antes de serem recolhidos. Essa prática de espetacularização da punição era rotina no Brasil colonial, mas o esquartejamento — divisão do corpo em quatro partes — era reservado a crimes particularmente graves, como traição contra o Rei. A mensagem era clara: qualquer tentativa de separação territorial ou rearranjo social seria punida com o máximo rigor disponível.
O que a historiografia deixou de lado
Durante muito tempo, os estudos sobre a Conjuração Baiana trataram os líderes como figuras isoladas, sem conectar o movimento a redes mais amplas de resistência atlântica. Só nas últimas décadas é que pesquisadores começaram a mapear os laços entre os conjurados baianos e comunidades afro-atlânticas, mostrando que as ideias circulavam muito além dos salões letrados tradicionais. Um erro comum em materiais introdutórios é apresentar a revolta como um episódio isolado, quando ela se conecta diretamente com tensões que atravessariam todo o século XIX no Brasil. A questão da abolição, da citizenship para pessoas negras e da participação política de não-elites retornaria com força em 1808, 1821, 1831 e, finalmente, 1888. Os conjurados de 1798 estavam plantando bandeiras que só seriam colhidas cem anos depois.
Há também uma tendência a subestimar o papel das mulheres na sustentação logística do movimento, ainda que elas não tenham sido formalmente acusadas. Relatos da época mencionam que atividades de recrutamento e disseminação de panfletos muitas vezes passavam por redes domésticas e religiosas onde mulheres tinham circulação mais livre do que os homens. Nenhuma fonte primária prova participação ativa, mas a ausência de registro não significa ausência de presença.
Fontes para quem quer aprofundar
Os documentos originais do processo estão arquivados na Academia de Letras da Bahia e em acervos portugueses, especialmente na Torre do Tombo em Lisboa. Há edições modernas que disponibilizam cópias digitalizadas dos autos do inquérito, embora a leitura exija familiaridade com a caligrafia e a ortografia do final do século XVIII. Trabalhos contemporâneos como os de Maria Odila Leite da Silva Dias e pesquisas mais recentes sobre história atlântica africana oferecem análises que vão além da narrativa tradicional. Se você está investigando o tema seriamente, o melhor ponto de partida são os próprios processos judiciais, não os manuais escolares. Eles mostram um retrato muito mais complexo do que o resumo de duas páginas que geralmente se encontra em livros didáticos.
O legado da revolta permaneceu vivo de forma subterrânea durante o século XIX. As ideias de igualdade racial e república voltariam a aparecer em movimentos como a Confederação do Equador em 1824, liderada por Frei Caneca, que também enfrentaria repressão violenta. Os conjurados baianos morreram enforcados, mas o que eles proporam continuaria ecoando até o fim da monarquia e além.