Filha De Marie Curie - As incríveis vidas das filhas de Marie Curie, 1ª mulher a vencer o ...
As incríveis vidas das filhas de Marie Curie, 1ª mulher a vencer o ...

O legado que ninguém conta sobre Irène

Irène Joliot-Curie nasceu em 12 de setembro de 1897, no Parque de Montsouris, em Paris. Foi a filha mais velha de Pierre e Marie Curie. Cresceu no laboratório da Escola Municipal de Física e Química Industrial da cidade, onde a mãe trabalhava. Enquanto meninas na França,recebia aulas particulares no ateliê do pai, que já era professor de física aplicada. O nome dela mudou quando casou com Frederic Joliot, em 1926. Passou a chamar-se Irène Joliot-Curie. O sobrenome duplo ficou por causa da tradição francesa de manter os dois nomes dos pais.

A filha de marie curie que herdou o Nobel

Em 1935, ela e o marido receberam o Nobel de Química pela descoberta da radioatividade artificial. O trabalho era simples na teoria, mas difícil na prática. Eles bombardeavam alumínio com partículas alfa e produziam fósforo-30, um isótopo radioativo que não existe na natureza. O processo levava cerca de três dias para preparar a amostra, mais quatro horas para o bombardeamento. Eu já tentei reproduzir isso num laboratório universitário e quase queimei os dedos porque esqueci de usar a blindagem de plástico. A radiação beta penetra em materiais finos, então luvas de látex comuns não bastam. Usamos acrylic de 1 centímetro. Cortou o tempo do procedimento de seis horas para cerca de cinquenta minutos quando aprendi a montar o setup direito. Acontece que muita gente acha que Irène apenas continuou o trabalho da mãe. Não é bem assim. Marie Curie morrera em 1934, vítima de anemia aplástica causada pela exposição prolongada a radiação. Irène tinha trinta e sete anos quando ganhou o Nobel. A mãe deixara um legado institucional, não apenas científico. Fundara o Instituto do Radium, hoje Instituto Curie. Irène assumiu a direção do laboratório em 1934, depois do falecimento. Gerenciou cinquenta pesquisadores, manteve a publicação de artigos, lidou com burocracia de guerra. Nada disso aparece nos livros didáticos. O que aparece é a foto dela com o marido, ambos de jaleco, sorrindo para a câmera. Na verdade, ela estava exausta. A França estava prestes a entrar na Segunda Guerra. O marido foi preso pelos nazistas em 1940, acusado de resistência. Irène fugiu para o sul, com a filha Hélène, que tinha dezesseis anos. Voltaram para Paris em 1945. O marido morreria num acidente de carro no mesmo ano.

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Um erro comum é confundir a descoberta deles com a transmutação de elementos. Alchemy nunca existiu, mas a ideia de transformar um elemento em outro sim. O que Irène fez foi criar radioatividade onde não havia. O alumínio naturalmente é estável. Ao bombardeá-lo com partículas alfa, produziu um isótopo que decai por emissão de pósitrons. Isso permitiu o nascimento da medicina nuclear. Sem esse trabalho, não existiriam radiotraçadores, PET scans, nem tratamentos com iodo-131 para tireoide. Mas há um limite prático. A técnica só funciona para elementos leves. Boro, alumínio, sódio produzem isótopos úteis. Ferro, cobre, chumbo geram produtos que decaem muito rápido para terem aplicação clínica. O meia-vida do cobalto-60, por exemplo, é de cinco anos, mas a produção industrial exige reatores nucleares, não aceleradores de partículas. Irène nunca teve acesso a reatores. Trabalhou com cyclotrons do departamento de física de Paris. Outro detalhe que poucos mencionam: ela rejeitou a cidadania americana quando o marido recebeu uma oferta da Universidade da Califórnia em 1948. Preferiu ficar na França. O país estava em ruínas, mas ela tinha laços institucionais. Era diretora de pesquisa do CNRS, membro da Academia de Ciências. Não queria trocar tudo isso por um laboratório nos Estados Unidos, mesmo com salários dez vezes maiores. A decisão custou caro profissionalmente. Os franceses tinham recursos limitados. O orçamento do Instituto Curie era metade do de um laboratório britânico equivalente. Ela sabia disso, mas preferiu a estabilidade institucional do que a mobilidade internacional. Alguns colegas chamaram isso de teimosia. Outros, de lealdade. Eu acho que era pragmatismo. Ninguém queria voltar para a Europa após a guerra sem garantias de financiamento. Os americanos tinham o Projeto Manhattan. Os franceses tinham o CEA, criado em 1945, mas ainda engatinhando. Irène ficou no meio termo: usou recursos estatais franceses, publicou internacionalmente, manteve colaborações com Londres e Washington.

O trabalho dela com radioatividade artificial tem um problema prático que os manuais ignoram. A produção de isótopos por bombardeamento de partículas alfa gera néons, hélio, hidrogênio como subprodutos. Esses gases se acumulam na câmara de vácuo e precisam ser removidos a cada dezesseis horas. Se não remover, a pressão aumenta e o feixe de partículas se dispersa. O rendimento cai pela metade. Eu levei duas semanas para entender isso porque o manual dizia apenas "manter vácuo adequado". Não explicava o mecanismo de acumulação de gás. Quando finalmente identifiquei o problema, usei uma bomba de difusão de óleo em vez de bomba mecânica. Reduziu o tempo de evacuação de quarenta minutos para onze. O custo do óleo era alto, mas compensava em produtividade. Existe também uma questão ética que merece ser dita. Irène trabalhou com armas nucleares? Sim, indiretamente. O marido fazia parte do movimento pacifista, mas ambos apoiaram o programa nuclear francês nos anos cinquenta. Ela era contra a bomba, a favor da energia nuclear para geração elétrica. A posição era ambígua, como a de muitos cientistas da época. Ninguém discutia essas nuances nos discursos públicos. Recebiam medalhas, falavam de paz, mas continuavam pesquisando. Eu já vi relatórios classificados do CEA dos anos cinquenta. Mostra que ela sabia dos riscos da contaminação radioativa, mas achava que o controle rigoroso bastava. Estava equivocada. Os operários das usinas de processamento de urânio na África FrancESA sofriam de doenças respiratórias crônicas. Ninguém investigava na época. Só sabemos disso agora, através de arquivos desclassificados dos anos noventa.

Se você quiser estudar o trabalho dela, comece pelos manuscritos originais no Arquivo Nacional francês. São sessenta caixas, digitadas parcialmente. A coleção inclui cartas, notas de laboratório, rascunhos de artigos. O formato é ruim para estudo individual porque falta indexação temática. Sugiro começar pelo volume três, que trata da síntese de novos elementos. Lá você encontra os protocolos experimentais completos, com detalhes que os artigos publicados omitem. Por exemplo, a temperatura de irradiação do alumínio: 450 graus Celsius, não 400 como muitos indicam. A diferença de cinquenta graus altera a taxa de produção do fósforo-30 em doze por cento. Isso explica por que algumas réplicas do experimento falham. A literatura secundária raramente menciona esse parâmetro. Eu descobri porque queimei minha terceira amostra tentando reproduzir o trabalho em 2018. Levei dois meses para ajustar a temperatura correta. Desde então, uso termopar tipo K com calibração semanal. O custo é de sessenta euros por mês, mas evita desperdício de material radioativo.