O'que Um Cordel - Literatura de Cordel é patrimônio cultural do Brasil
Literatura de Cordel é patrimônio cultural do Brasil

O que é um cordel

Cordel é literatura de folheto, feita para ser vendida em feiras e mercados. O nome vem mesmo do costume de pendurar os folhetos em cordas ou barbantes. Não é poesia erudita, não é conto sofisticado. É uma tradição viva, principalmente no Nordeste do Brasil, com métrica rígida, rimas previsíveis e temas que vão do sagrado ao profano.

Pessoas costumam perguntar: o'que um cordel

A resposta curta é: um gênero literário popular brasileiro, escrito majoritariamente em versos octossílabos, com septetras ou sextilhas, publicado em pequenos folhetos encadernados em papel grosso e vendidos por preço acessível. A pessoa se pergunta isso porque a tradição do cordel ficou quase desconhecida fora do Nordeste durante décadas, e muitos confundem com poesia erudita ou com simples versos populares sem estrutura. Eu comecei a escrever cordel em 2011 por conta própria, sem curso nenhum. A primeira coisa que ninguém te avisa é que o verso decassílabo com pausa métrica (redondilha maior) não é a mesma coisa que ler um poema normal. Você conta as sílabas tônicas, não as sílabas gramaticais. Isso mata muita gente na hora.

Por exemplo: a palavra "amor" tem uma sílaba tônica. "Coração" também. Mas quando você escreve "O coração se opened de dor", o contador métrico vai te dar errado se você não souber fazer a sinalefa — a fusão da vogal final de uma palavra com a vogal inicial da próxima. Isso é o primeiro passo prático que você precisa dominar antes de qualquer outra coisa. Sem sinalefa, a métrica nunca fecha.

Como funciona a estrutura na prática

A maioria dos cordelistas trabalha com seis estrofes de sete versos cada, chamadas septetras. Os versos são octossílabos, mas existem variações. Alguns usam estrofes de dez versos, outros de quatro, dependendo do padrão regional. O importante é manter a cadência de forma consistente dentro do mesmo poema. Quando eu estava aprendendo, eu escrevia um cordel inteiro e só depois ia contar as sílabas. Isso é um erro muito comum. O correto é contar verso por verso enquanto você escreve, porque corrigir dezesseis estrofes depois é muito mais trabalhoso do que revisar conforme vai fazendo. Eu perdi três dias refazendo um cordel sobre o Sanfoneiro Lindemberg porque não contei métrica no rascunho. Levei duas horas para reescrever tudo com o contador certo. Depois disso, nunca mais cometi esse erro.

As rimas geralmente seguem o esquema ABABBCB na septetra. Ou seja: primeiro e terceiro versos rimam entre si, segundo e sétimo rimam entre si, e os demais podem ter ligações internas. Existem variações regionais — em alguns lugares se usa a sextilha, que é cinco versos com esquema ABBBB, muito mais difícil porque todos os versos depois do primeiro precisam rimar com a mesma palavra-chave.

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O formato físico e a publicação

O folheto de cordel tradicional tem tamanho pequeno, geralmente 11 por 15 centímetros, com capa ilustrada. A ilustração é parte essencial da tradição. Muitos cordelistas desenharam suas próprias capas ou encomendavam a artistas locais. Atualmente, existem modelos prontos no software CorelDRAW e até no LibreOffice Draw que aceleram esse processo em cerca de 70% do tempo comparado a fazer do zero. Quem quer publicar um cordel hoje em dia tem opções digitais e físicas. A forma física ainda domina em feiras e bancas do Nordeste. A digital cresceu bastante, especialmente com plataformas como a Cordeloteca e sites de venda de folhetos em PDF. O problema é que o download de folhetos físicos ainda não tem escala nacional como acontece com ebooks de poesia erudita. Isso limita bastante a distribuição.

Dificuldades que você vai encontrar

Vou listar as coisas mais chatas que aparecem na prática, porque os livros didáticos geralmente não mencionam. Rima obrigatória com palavras difíceis: às vezes a métrica exige que você use uma rima em "-or" ou "-ão" num contexto onde não existe vocabulário natural. Resultado: o verso fica forçado. A solução é usar sinônimos ou reescrever a estrofe inteira de outra forma. Isso já aconteceu comigo pelo menos cinco vezes em trabalhos que foram publicados.

Versos que parecem errados metricamente mas estão certos: se você tem uma frase como "E saiu correndo pra fugir da lei" e conta as sílabas tônicas sozinhas, pode achar que não fecha o octossílabo. Mas com sinalefa e elisão, fecha perfeitamente. Esse tipo de situação confunde muita gente no início. Temas sensíveis e censura: o cordel trata de coisas sérias, mas também de temas polêmicos. Eu já vi folhetos serem apreendidos por autoridades municipais por conterem críticas políticas diretas. Isso não é exagero. Vale a pena ler os casos registrados pela FUNDAÇÃO JOÃO CAMPOS antes de publicar algo muito provocativo, principalmente se a sua intenção é vender fisicamente em feiras.

O que diferencia um bom cordel de um mediano

Não é apenas a métrica perfeita. Um cordel bem feito tem três elementos que os iniciantes costumam negligenciar: tema relevante para o público local, domínio da linguagem coloquial sem caer no piegas, e capacidade de fazer o leitor se identificar com a história em três ou quatro páginas. Eu já li cordéis tecnicamente impecáveis que eram_chatarras_ literárias. Rimavam certo, tinham métrica boa, mas não diziam nada que importasse pra quem lia. O também acontece: às vezes um cordel com métrica duvidosa consegue emocionar porque o tema é forte e a narrativa é genuína. Isso é algo que você só entende lendo muita coisa e analisando o que funciona no bancão da feira.

Se você quer começar a escrever, o caminho mais rápido é copiar estruturas de cordéis conhecidos sem copiar o conteúdo. Pegue um folheto antigo, transcreva, analise a métrica verso por verso, entenda como o autor fez as rimas e aí sim crie seu próprio trabalho sobre o mesmo formato. Esse método me levou de zero para o primeiro folheto publicado em aproximadamente oito meses de prática constante.

Como baixar e criar seu próprio cordel

Existem plataformas gratuitas onde você encontra modelos prontos para estudar e adapt