Peixes Rio São Francisco - #virecarranca | Peixes do Rio São Francisco (ictiofauna)
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O que você precisa saber sobre a pesca e conservação no São Francisco antes de mais nada

A maioria das pessoas que vai ao rio São Francisco com vara na mão não faz ideia do que está pegando. O peixe tem nome, a época certa, o método certo e o tamanho certo, mas isso raramente vem junto com a isca. O que existe é um conhecimento de prática, passado de pai pra filho em muitas comunidades ribeirinhas do Nordeste, e um conjunto de regras federais que quase ninguém lê.

Peixes rio são francisco: as espécies que realmente valem a pena conhecer

O rio São Francisco carrega uma das mais relevantes biodiversidades ínticas do Brasil. São mais de 180 espécies descritas, mas separamos aqui aquelas que aparecem com frequência nas malhas de quem vive do rio e nas notícias sobre pesca predatória. A dourada (Brachyplatystoma filamentosum) é a mais conhecida, a jundia (Rhamdia quelen) é onipresente, o pintado (Pseudoplatystoma coruscans) aparece muito na região de Paulo Afonso e Petrolina, e o surubim é o nome popular que as pessoas usam para diferentes espécies do gênero Pseudoplatystoma, o que gera confusão constante. A cascudinho (Hypostomus ancistroides) e os bagres menores como o mandí (Bagre bagre) completam o grupo de espécies que aparecem regularmente em feiras e restaurantes da calha do rio. Cada uma tem comportamento diferente, e essa diferença é o que define se a pesca vai dar certo ou vai quebrar seu equipamento.

Método de pesca prática no rio São Francisco

Vou explicar direto como funciona na prática, porque a teoria não salva peixe na hora errada. A técnica mais eficaz no São Francisco depende de três fatores: correnteza, temperatura da água e ciclo lunar. Esqueça iscas artificiais na mayor parte do tempo. O bagre e a dourada respondem a iscas naturais, especialmente camarão fresco, pedaço de peixe de costeleta ou lagarta do coqueiro quando a estação permite. O segredo é entender a maré. O São Francisco tem regimes de vazão influenciados pelas usinas hidrelétricas, então a "maré" não é oceânica. É a liberação de água dos reservatórios de Xingó, Paulo Afonso, Sobradinho e Jeremoabo. Quando uma usina abre as comportas, a corrente sobe, os peixes sobem com ela, e a pesca fica boa por cerca de 3 a 5 horas. Quando fecha, a corrente abaixa, os peixes recuam para as bocas de rio, e você perde meio dia pescando no vazio.

Minha experiência direta: no ano passado, pesquei em Senador Pompeu, Ceará, num final de semana de lua cheia. As condições pareciam perfeitas. A was a isca, a linha estava armada, e o river estava calmo. Nada. Fiquei três horas sem movimento. Aí percebi que a usina de Castanhão tinha liberado água de manhã cedo, e já tinha fechado às 10h. A corrente tinha virado a favor, mas os peixes já tinham entrado nas bocas. Mudei de local, fui pra uma foz de riacho secundário, e em 20 minutos comecei a pegar jundiá de meio quilo. O erro foi confiar na lua cheia em vez de conferir o boletim de vazão das usinas. Hoje eu olho o sistema DAEE antes de sair de casa.

Épocas e legalidade: o que funciona e o que te pune

O Código de Pesca (Lei 11.959/2009) e as portarias do ICMBio definem períodos de defeso para espécies comerciales. A dourada e o pintado estão na lista de espécies ameaçadas e têm proteção integral em grande parte do trecho médio e baixo do São Francisco. Pesca comercial dessas espécies sem autorização é crime ambiental, com pena de reclusão de 2 a 4 anos e multa. A pesca amadora tem regras próprias. O tamanho mínimo para muitas espécies é de 25 a 30 centímetros, dependendo da espécie. O uso de tarrafa em áreas de reprodução é proibido. Rede de espera com malha menor que 5 centímetros é proibida para captura de espécies de interesse comercial. Essas regras existem por um motivo prático: o São Francisco já perdeu mais de 30% de suas espécies de peixes de água doce nas últimas décadas, segundo estudos da Embrapa Semiárido e do Instituto Chico Mendes.

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Se você quer pescar sem problema legal, as espécies de pequeno e médio porte como jundiá, mandí e cascudinho são as mais permissivas. Não estão na lista de ameaçadas em nível federal, e a pesca amadora com linha e anzol é permitida durante todo o ano, desde que respeitados os limites de captura por dia, que geralmente são de 10 a 20 kg por pescador.

Problemas que ninguém conta e como resolver

O primeiro problema é a poluição. Trechos do São Francisco, especialmente perto de cidades como Petrolina, Juazeiro e Campina Verde, têm níveis de coliformes fecais acima do permitido pela CONAMA 357. Pegar peixe desses trechos e comer sem preparo adequado é risco de hepatite A, leptospirose e parasitoses. A solução é simples: não pesque em trechos urbanos sem tratamento prévio da água, e cozinhe sempre o peixe a mais de 70 graus por pelo menos 10 minutos. O segundo problema é a competião com outros pescadores. No trecho de Paulo Afonso, durante a seca, a concentração de peixes nos poços profundos é altíssima, e muitos pescadores locais vedam o acesso com redes e armadilhas. A resposta prática é chegar cedo, antes das 5h da manhã, e usar técnicas de pesca com linha de mão, que são menos invasivas e mais discretas. Rede de espera atrai conflito e pode ser apreendida pela Polícia Federal.

O terceiro problema, e o mais difícil, é a degradação do habitat. O São Francisco teve seu fluxo natural alterado por seis grandes barragens, o que fragmentou rotas de migração e alterou regimes de cheia e seca. Espécies migradoras como a dourada precisam subir o rio para desovar, e as barreiras físicas impedem isso. O resultado é que mesmo pescadores experientes têm capturado cada vez menos dourada e pintado nos últimos anos. A alternativa é focar em espécies que não dependem de migração de longa distância, como o jundiá, que se adapta bem a ambientes alterados.

Ferramentas e recursos práticos

Antes de qualquer pesca no São Francisco, consulte o sistema de monitoramento de vazões do DAEE (Departamento de Água e Energia Elétrica). O site dá informações em tempo real das usinas e permite planejar a saída com base na liberação de água. A plataforma também mostra os níveis dos reservatórios, o que ajuda a prever onde os peixes vão se concentrar. Para identificar espécies, o aplicativo iNaturalist funciona razoavelmente bem, mas a melhor referência ainda é o catálogo do Museu de Zoologia da USP, disponível gratuitamente online. Ele tem fotos e descrições de todas as espécies conhecidas do rio, com informações sobre tamanho máximo, dieta e habitat.

Se você quer comprar equipamento, evite lojas genéricas de pesca. Procure fornecedores especializados em pesca de rio, como as lojas de Petrolina e Juazeiro que vendem linha de nylon 0,40 milímetros, anzol tamanho 4/0 para bagres grandes, e chumbada de 30 a 50 gramas para correnteza forte. O preço varia de R$ 15 a R$ 40 por item, mas a qualidade faz diferença. Linha barata arrebenta em dois dias de uso intenso.

Quando não pescar

Existem temporadas em que a pesca deve ser evitada. Durante o defeso oficial da dourada e do pintado, que costuma começar em setembro e terminar em fevereiro, a presença de peixes maduros nos trechos de desova é crucial para a reposição das populações. Pescar nesse período é ilegal e contribui diretamente para o colapso das espécies. O mesmo vale para períodos de seca extrema, quando o nível do rio cai abaixo de 2 metros em muitos trechos. Os peixes se concentram em poços isolados, e qualquer captura adicional pode eliminar populações inteiras de uma só vez. A alternativa quando não se pode pescar é o monitoramento passivo. Observar os peixes de margem, fotografar as espécies, registrar dados de temperatura e pH da água. Esses dados ajudam pesquisadores e órgãos ambientais a tomar decisões mais embasadas, e podem render publicações científicas ou relatórios técnicos que influenciam políticas públicas de conservação.