A pergunta que todo mundo faz e poucos sabem responder direito
O número de espécies animais descritas pela ciência hoje gira em torno de 1,7 a 2 milhões. Mas o total real, incluindo os ainda não catalogados, é estimado entre 8 e 12 milhões. A maior parte vive em florestas tropicais e nos oceanos profundos, lugares que nem conseguimos mapear com eficiência. O fato é que nenhum cientista no mundo tem certeza do número exato, e essa incerteza é parte do problema.
quantos animais existem: a realidade dos números
Quando eu comecei a trabalhar com inventário de biodiversidade, na verdade eu achava que o processo era simples: coletar, identificar, registrar. A prática mostrou que não funciona assim. O maior obstáculo não é a falta de vontade de descrever novas espécies, é a falta de taxonomistas. O número de especialistas na área caiu drasticamente nas últimas décadas, enquanto a taxa de descoberta se mantém alta em grupos como insetos e nematoides. Em 2011, um estudo publicado na PLOS Biology estimou cerca de 7,77 milhões de espécies eucarióticas no planeta, sendo que apenas cerca de 1,2 milhão havia sido descrita até então. Desde então, novas descrições surgem todos os anos, mas a lacuna entre o descrito e o estimado só cresceu. Um detalhe que poucos consideram: a maioria das espécies estimadas são insetos. Somente na classe Insecta, as estimativas variam de 5 a 30 milhões de espécies, dependendo do método de projeção usado. Os nematoides também representam uma quantidade colossal, possivelmente na casa dos milhões, mas praticamente todos vivem em solo ou em ambientes aquáticos que raramente acessamos. O que isso significa na prática? Significa que quando alguém afirma "existem X milhões de espécies animais", esse número carrega uma margem de erro enorme, muitas vezes superior a 50 por cento.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Outro problema prático que encontrei diretamente: a taxonomia é dinâmica. Espécies são reclassificadas, sinônimos são fundidos, e novos genes revelam que duas populações aparentemente iguais são na verdade espécies distintas. Eu trabalhei num projeto de levantamento de aranhas urbanas onde o que inicialmente identificamos como uma única espécie acabou se dividindo em quatro após análise filogenética molecular. Isso já aconteceu várias vezes ao longo dos anos, e é um lembrete constante de que os números que vemos em bases de dados como o Catalogue of Life ou o IUCN Red List estão sempre desatualizados de alguma forma. As bases de dados mais usadas para consulta são o Integrated Taxonomic Information System (ITIS), o World Register of Marine Species (WoRMS) e o Animal Diversity Web da Universidade de Michigan. Cada um tem viéses diferentes. O WoRMS cobre organismos marinhos com bastante rigor, mas ignora completamente a diversidade terrestre. O ITIS é mais focado em espécies da América do Norte. O ADW é útil para informação geral, mas não é uma fonte primária de contagem. Se você precisa de números confiáveis, o ponto de partida ideal é o Species 2000 e o seu banco de dados global, que agrega informações de múltiplos catálogos regionais.
A estimativa mais citada atualmente vem do biólogo Cameron Ghalambro e colegas, que em revisões mais recentes apontam para cerca de 8,7 milhões de espécies eucarióticas, com uma margem de erro de mais ou menos 1,3 milhão. Destas, aproximadamente 1,2 milhão estão descritas. Os outros 7,5 milhões permanecem desconhecidos, muitos provavelmente antes de serem descobertos já estarão extintos. A taxa de extinção atual é estimada em centenas a milhares de vezes acima da taxa de fundo, o que significa que estamos perdendo espécies sem jamais ter tido a chance de documentá-las. Se o seu objetivo é consultar dados para um trabalho ou relatório, o caminho mais direto é acessar o IUCN Red List (redlist.org), que possui informações consolidadas sobre o status de conservação de mais de 160 mil espécies. Para estimativas globais, o artigo original de Mora e colegas de 2011 ainda é a referência principal, apesar da data. Versões atualizadas aparecem periodicamente em revistas como Science e Nature, mas nenhuma substituiu o estudo original como base de comparação.
O que eu posso dizer com certeza baseada na experiência prática é que a maioria das pessoas que fazem essa pergunta não está realmente interessada no número exato. Está interessada na escala do desconhecido. E essa é, na verdade, a parte mais importante da história. A quantidade de animais que ainda não conhecemos é maior do que a quantidade de todos os que já descrevemos juntos. Isso muda completamente a forma como encaramos a conservação, a pesquisa e até a forma como ensinamos biologia. O número importa, mas o que ele representa importa mais.