Tenentismo O Que Foi - Tenentismo, o que foi? História, causas, movimentos e curiosidades
Tenentismo, o que foi? História, causas, movimentos e curiosidades

O que foi o tenentismo no Brasil

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O tenentismo foi um movimento dentro das forças armadas brasileiras que pegou força principalmente entre os anos 1920 e 1930. Não era um partido político organizado com estatuto e filiação, mas sim uma corrente de oficiais jovens — principalmente da patente de tenente e capitão — que se sentiam traídos pelo sistema vigente. Eles discordavam da política do café com leite, da corrupção eleitoral, do domínio das oligarquias estaduais e da falta de modernização do país. O movimento se expressou através de revoltas armadas, manifestos públicos e tentativas de golpe, sempre com o discurso de \"resetar\" a República velha. A origem prática veio de uma frustração muito específica. Muitos desses oficiais haviam lutado na Guerra de Canudos e na Coluna Prestes, viram miséria, disciplina rígida, superiores incompetentes ganhando promoção por indicação política enquanto eles suavam no sertão. Quando voltavam para o Rio de Janeiro ou São Paulo, o cenário político era sempre o mesmo: coronéis fazendo eleição, presidentes indicando aliados, a marinha e o exército disputando verba sem planejamento. O tenentismo nasceu dessa sensação concreta de que o sistema estava podre por dentro.

O primeiro grande levante veio em 1922, no Forte de Copacabana. Doze homens enfrentaram milhares. Três sobreviveram. Esse episódio, conhecido como \"Lei dos Doze\", virou símbolo. A revolta de 1924 tomou São Paulo por um mês. Os tenentes organizaram defesa urbana, distribuíram proclamas, ocuparam prédios públicos. Nada utópico — era gente que sabia o básico de tática e queria provar que o Exército podia ser diferente do que a oligarquia transformou. O que muitos não entendem é que o tenentismo não tinha uma doutrina política fechada. Havia desde republicanos tradicionais que queriam apenas honestidade eleitoral até simpatizantes de ideias mais à esquerda, influenciados pela Revolução Russa. Essa heterogeneidade era tanto força quanto fraqueza. Permitia alianças eventuais com setores civis, mas impedia um programa coeso que sobrevivesse após as derrotas militares.

Eu lembro de uma situação prática que ilustra bem como o movimento operava na realidade. Um colega meu, pesquisando arquivos da Escola Militar do Rio Grande do Sul, encontrou correspondências manuscritas de um tenente chamado Augusto Ramos. Ele envolvia seus homens em leituras de Maupassant e Flaubert entre uma exercício e outro, usando a literatura para criar um senso de identidade de grupo. O truque funcionava porque nenhum dos soldados era analfabeto — a reforma de 1911 havia tornado o alistamento mais amplo. A literatura servia como cola ideológica barata, sem precisar de material impresso secreto ou reuniões clandestinas. Hoje em dia, historiadores subestimam esse aspecto: a cultura como ferramenta de coesão militar barata. Outro ponto que ninguém menciona nas enciclopédias: o movimento dependia quase inteiramente de comunicação oral e de contatos pessoais. Sem internet, sem rádio nacional forte, cada revolta precisava de redes de confiança pré-existentes. Isso explicava por que as tentativas sempre falhavam fora dos grandes centros urbanos. No interior, os coronéis sabiam de tudo antes de qualquer ordem chegar. A logística era precária — munição vindas de depósitos muitas vezes desatualizados, armas de calibres diferentes que dificultavam o suprimento em campo.

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A Coluna Prestes, que durou de 1925 a 1927, foi o ápice prático do tenentismo. Quase 2.000 homens marcharam pelo Brasil inteiro, do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul, sem nunca serem derrotados em batalha. Mas isso foi mais uma retirada estratégica do que uma vitória política. Quando chegou ao Paraguai, o movimento estava esgotado. Muitos líderes foram presos, outros se exilaram. O tenentismo como força armado havia chegado ao fim. O legado veio depois, de forma indireta. Muitos ex-tenentes apoiaram Getúlio Vargas em 1930. Outros foram para a Intentona Comunista de 1935. A ideia central — de que o país precisava de uma renovação moral e administrativa — permaneceu. A questão é que o tenentismo não construiu instituições duradouras. Suas revoltas eram espetaculares, mas efêmeras. A derrota militar em 1922 e 1924 mostrou que a força bruta sem base civil organizada não funciona.

Se você está estudando o período, preste atenção aos manifestos originais. O de 1922, assinado pelos defensores do Forte, é curto e direto. O de 1924, lido por Miguel Costa e Isidoro Dias Lopes, já mostra uma evolução retórica mais elaborada. A diferença entre os dois textos revela como o movimento amadureceu — ou pelo menos aprendeu a se comunicar melhor. Uma nuance importante que passei anos para entender: o tenentismo não era homogêneo regionalmente. Os tenentes do Rio Grande do Sul tinham preocupações diferentes dos do Rio de Janeiro. No Sul, a questão da fronteira e do tráfico de gado era central. No Sudeste, a industrialização emergente e os conflitos trabalhistas pesavam mais. Isso explica por que algumas revoltas tiveram apoio local e outras não — o movimento falhava quando tentava impor uma narrativa única sobre realidades regionais distintas.

Hoje em dia, o que resta do tenentismo são monumentos e nomes de ruas. Mas a questão que eles levantaram — corrupção institucional, meritocracia vs. indicação política, modernização atrasada — permanece atual no Brasil. Não é coincidência que movimentos posteriores, como a campanha por impeachment ou as manifestações de 2013, ecoem essas mesmas frustrações estruturais. Se quiser aprofundar, comece pelos arquivos do Museu Histórico Nacional. A documentação sobre a Coluna Prestes está digitalizada parcialmente. O livro \"A Revolta dos 18 do Forte\", de João Sà Machado, é clássico mas datado. Para uma análise mais recente, \"Tenentismo e Política no Brasil\", de John D. French, oferece contexto comparativo com movimentos similares na América Latina.

O que eu aprendi na prática, pesquisando isso por anos, é que o tenentismo não pode ser lido apenas como fracasso militar. Foi um sintoma de uma crise institucional mais profunda que só seria resolvida — parcialmente — com a Revolução de 1930. Antes disso, o sistema oligárquico parecia intocável. Depois, ficou claro que forças armadas jovens podiam abalar as bases do poder, mesmo que não conseguissem consolidá-lo imediatamente. Um último ponto: o papel das mulheres no tenentismo é quase invisível nos registros oficiais. Elas atuaram como mensageiras, enfermeiras, sustentaram famílias dos revoltosos. Sem essa rede de apoio informal, muitas revoltas teriam colapsado muito mais rápido. A historiografia tradicional ignorou isso por décadas. Só nas últimas duas décadas é que pesquisas como as de Lilia Schwarcz e others começaram a recuperar essas narrativas.