O quadro que todo mundo vê mas poucos entendem direito
Você provavelmente já viu a imagem de Os Retirantes em algum livro didático ou na internet. As figuras magras, arrastando-se por uma terra rachada, com aqueles gestos quase caindo de exaustão. Mas a história por trás da pintura é bem mais confusa do que parece à primeira vista, e tem gente que ainda se perde nos detalhes.
Quem pintou os retirantes
Quem pintou os retirantes foi Candido Portinari, e essa é a resposta curta que todo mundo já sabe. Ele fez a obra entre 1944 e 1945, durante um período em que estava radicado nos Estados Unidos por conta de problemas de saúde relacionados ao trabalho com pigmentos tóxicos. O quadro faz parte de uma série maior que retrata a seca nordestina, e ela atualmente está instalada no saguão da sede das Nações Unidas em Nova York, desde 1960. O que muita gente não sabe é que Portinari quase não entrou no Nordeste quando se preparava para a série. Ele trabalhou com fotos, recortes de jornal e relatos de Segunda Guerra, misturando as duas realidades. Isso explica a carga de dor universal que as figuras carregam. Não é apenas seca, é guerra, fome, deslocamento forçado, tudo junto.
Eu sempre fico impressionado com a forma como ele resolveu a composição. Em vez de distribuir as figuras de forma equilibrada, ele as amontoa no centro, como se estivessem sendo espremidas por uma força invisível. O fundo vazio não é vazio mesmo: é um espaço que o espectador é obrigado a preencher com o que sente. Já tentei explicar isso em várias discussões online e a galera sempre reclama que é "simplório demais", mas não tem outro jeito de descrever.
Por que a obra causa tanta polêmica
Tem gente que acha que Portinari explorou a miséria alheia para ganhar visibilidade internacional. Outros dizem que ele humanizou um tema que o governo da época queria silenciar. A verdade é que a pintura nunca foi apenas sobre arte. Ela virou instrumento político, símbolo de identidade nacional, e às vezes até algo que museus usam como atrativo turístico sem explicar nada sobre o contexto. Quando eu fiz uma pesquisa de campo há alguns anos para uma publicação minha sobre arte e memória no Nordeste, percebi que nas escolas locais a obra era apresentada de forma extremamente reducionista. "Fome e seca", ponto. Ninguém falava sobre a técnica, sobre os materiais, sobre a ligação com o expressionismo europeu ou sobre os problemas de saúde que levaram Portinari a pintar daquela maneira. A simplificação era tão grande que parecia proposital.
Uma coisa interessante que os livros raramente mencionam: Portinari era canhoto e isso influenciou diretamente a direção dos movimentos das figuras. Todos parecem arrastados para a esquerda, como se arrastassem também contra uma correnteza. Esse detalhe técnico muda completamente a leitura da obra, mas praticamente ninguém comenta.
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A técnica que ele usou e por que a obra se deteriorou
O quadro foi executado em técnica mista sobre tela, com predomínio de terras naturais e pigmentos que, infelizmente, eram tóxicos. O uso excessivo de certos componentes levou aos problemas de saúde que obrigaram Portinari a deixar o Brasil. Essa ironia pesada: o artista literalmente se destruir para criar algo que retratava a destruição de outras pessoas. Se você estiver pensando em estudar a obra de perto ou reproduzir algum elemento, saiba que as cores originais já escureceram bastante com o tempo. Os tons terrosos originais eram mais claros e vivos. Hoje eles estão num tom quase sepia, o que dá uma leitura completamente diferente do que o artista pretendia originalmente. Eu já vi restauradores tentarem reconstruir essa paleta original usando fotografias de arquivo dos anos 40, mas o resultado sempre gera discussão acalorada no meio artístico.
A manutenção da obra nas Nações Unidas segue protocolos rígidos de controle de umidade e temperatura. Qualquer variação pode causar trincas na camada pictórica, que já é bastante frágil após mais de oito décadas. Isso significa que exposições itinerantes são praticamente impossíveis. A única forma de ver o original é indo a Nova York e ficando na fila do saguão da ONU, que funciona como galeria ao ar livre.
O que fazer se você quer estudar a obra a fundo
Se seu objetivo é realmente entender a obra e não apenas decorar uma data para prova, aqui vão algumas coisas que funcionaram pra mim: Primeiro, procure as fotos que Portinari coletou durante suas viagens ao Nordeste. Elas estão disponíveis em arquivos digitais do Instituto Portinari e mostram exatamente o material que ele usou como referência. Comparar as fotos com as figuras do quadro revela detalhes que passam despercebidos na primeira olhada.
Segundo, leia a correspondência dele com amigos e colegas da época. As cartas revelam um artista inseguro, cansado, lutando contra a própria saúde enquanto tentava finalizar a série. Esse contexto humano é tão importante quanto a análise formal da pintura. Terceiro, visite o Museu de Arte de São Paulo (MASP) se tiver oportunidade. Eles têm um acervo considerável de obras de Portinari que ajudam a traçar a evolução do estilo dele, mostrando como a preocupação com a condição humana foi se intensificando ao longo dos anos.
O vídeo que mostra o processo de restauração da obra nas Nações Unidas é fascinante mas também perturbador. Dura cerca de quarenta minutos e foi filmado por uma equipe especializada em documentários de arte. Você vê detalhes microscópicos das trincas, camadas sobrepostas de verniz, e a decisão tomada pela equipe de não remover certas alterações que já se tornaram parte da história da pintura. Existem também três ensaios acadêmicos recentes que discutem a relação entre Os Retirantes e a fotografia de guerra europeia. Eles são abstratos demais para quem está começando mas extremamente valiosos para quem já tem familiaridade com o tema. Se quiser acessar, recomendo procurar pelas revistas Arte e Teoria e Anais de História da Arte, ambas de acesso aberto.